sábado, 24 de agosto de 2024

Armado no banheiro

Estava na praça de alimentação de um modesto shopping localizado em Lauro de Freitas, quando escutei a conversa sobre três rapazes que encontraram um homem armado dentro do banheiro daquele estabelecimento comercial.

Segundo uma mulher que sentava na mesa logo atrás de mim, e conversava com outra moça, um deles disse que o homem estava apontando uma arma para um box que estava de porta fechada.

- Acho que ele queria matar alguém que se escondeu dentro do box. – disse a mulher.

- Matar aqui dentro do shopping? Ele ia causar um estardalhaço. - disse a outra.

Mas o sujeito armado estava usando um silenciador, de acordo com um cara que viu a cena. Ao ser flagrado pelos rapazes, o homem guardou a arma rapidamente e saiu às pressas do shopping. A pergunta que surge é: por que ele não disparou em quem o viu e depois terminou o suposto serviço?

Essa questão é apenas uma das inúmeras que podem ser elaboradas pelo espírito curioso. O evento no banheiro certamente carrega uma ou mais tramas que estão ocultas aos nossos olhos.

É por isso que é inevitável comparar eventos que acontecem na vida real com um conto de ficção. Nas suas “Teses sobre o conto”, o autor argentino Ricardo Piglia escreveu que “um conto sempre conta duas histórias”. Contudo, um evento que acontece na realidade também vai além daquilo que aparece no primeiro plano. Em segredo, um ou mais eventos vão se construindo por baixo do ocorrido que está na superfície. O homem armado no banheiro coletivo é a parte visível de algo muito maior. Nesse caso, enquanto a polícia e o jornalismo investigativo não desvendam o que culminou nesse acontecimento, as pessoas vão elaborando conjecturas.

Isso evidencia a relevância do oculto (para o bem ou para o mal) tanto na realidade quanto na ficção.

É claro que há quem desconfie dessa tese, como o autor do Evangelho de Lucas. Ele acreditava que o oculto era temporário. No versículo 8, capítulo 17, Jesus diz que “não há nada oculto que não venha a ser revelado”. O trecho, que faz parte da parábola da candeia, sugere que nada escapa da conspicuidade. Mas a história e a ficção conseguem desmontar esse otimismo cristão.

Por exemplo, até hoje ninguém sabe quais as motivações exatas que levaram Lee Harvey Oswald a atirar no presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, em 22 de novembro de 1963. E ninguém sabe quem foi que enviou uma carta acusando Camilo de ser “imoral e pérfido”, no conto “A Cartomante”, de Machado de Assis.

São exemplos que estimulam a imaginação das pessoas. O oculto indecifrável abre uma “lacuna” que só pode ser preenchida pela teoria conspiratória, pelos palpites e pelas hipóteses. Pode-se dizer que o oculto incentiva um tipo específico de mercado. Há livros, filmes, documentários que procuram responder questões insolucionáveis.

Observe quantas produções foram criadas para desvendar a obscura identidade de “Jack, o Estripador”, cujos assassinatos chocaram a Inglaterra vitoriana. Acredito que ninguém daquela época foi capaz de cogitar que o brutal homicida se tornaria um enigma que atravessaria as eras.

Como ninguém agora acredita que a identidade do homem armado no banheiro se tornará assunto de livros daqui a 300 anos. É até interessante pensar o tipo de trama complexa que há por baixo do ocorrido no banheiro. Pode até ser uma trama internacional de espionagem ou um confronto entre matadores de aluguel. Cogitar hipóteses parece divertido. Mas o oculto tem um lado claramente horrendo: sem desvendar o crime, o bandido continuará solto e permanecerá escondido à vista de todos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Metrô superlotado

A superlotação do metrô é um fenômeno comum nos grandes centros brasileiros. Mas o sistema metroviário de Salvador possui uma particularidade que deveria colocá-lo nos anais da literatura universal.

Do lado de fora do vagão do trem lotado, os costumes da civilização acabam inibindo ou amenizando uma característica que pode florescer no espírito humano e que se mostrou útil às artes e ao jornalismo: a ironia. O filósofo Friedrich Nietzsche acreditava que a moral domesticava o ser humano. Vou além e digo que a moral também impõe controle social sobre o espírito irônico. O sarcasmo pode parecer grosseria, segundo os nossos valores.

Contudo, no metrô entupido de gente, a situação muda significativamente. Ali dentro parece um mundo à parte, longe das amarras morais. É como se o cotidiano no vagão superlotado emergisse das penas do grande Machado de Assis. Ou é como se os passageiros incorporassem o espírito do autor carioca. Vi isso de perto.

A criatividade irônica se solta à medida que o alto-falante da empresa responsável por esse transporte vai comunicando mensagens repetitivas e monótonas. 

Por exemplo:

- O metrô de Salvador está se esforçando para que você tenha o maior conforto. - diz o alto-falante.

- Estamos super confortáveis, não é, pessoal? - pergunta um passageiro.

Todo mundo, inclusive eu, responde: 

- Simmmmm! 

Depois caímos na risada. 

Outro exemplo:

- Todos os dias, o metrô toma as medidas necessárias para garantir espaço e comodidade.

Uma mulher, que estava espremida entre várias pessoas, disse:

- Tem razão, metrô! Eu mesma estou desfrutando desse maravilhoso espaço!

Algumas pessoas gargalham. 

Mais uma vez o alto-falante se pronuncia:

- Uma dica para você, passageiro: escolha sempre os vagões das extremidades. Será mais fácil para você encontrar um lugar para se sentar.

Eu e muita gente estávamos em um desses vagões.

Uma outra mulher disse:

- Ideia brilhante, não? Ela (a voz do alto-falante era feminina) diz isso para qualquer pessoa ouvir. O fato de eu mal conseguir me mover, e de sequer conseguir me abaixar para pegar meu cartão que caiu, demonstra que todo mundo seguiu essa dica. Não é verdade, pessoal?

Todos, incluindo eu, respondem: 

- Com certezaaaaaa!

Pode-se dizer que o aperto (literal e figurado) faz o ironista. Porém, ninguém quer ficar tanto tempo dentro de um transporte que mais parece uma lata de sardinha ambulante. Portanto, a natureza do homem sarcástico de metrô é efêmera. Um autor dentro do vagão, e que queira trabalhar com a ironia pós-moderna em sua obra, encontrará muito material para escrever. Todavia, quando o metrô chegar na estação final, e as pessoas saírem, o espírito de chalaça será dominado pelas correntes da moral.

Ou melhor dizendo, a ironia será escondida pela civilização, assim como a coriza é ocultada pelo lenço. Peguei essa metáfora de Machado de Assis, que em uma crônica do dia 14 de junho de 1885 escreveu: “a civilização, que não inventou o defluxo, inventou o lenço, que dissimula o defluxo, guardando no bolso os seus defeitos”. Ele não referia à ironia, mas a linguagem figurada pode ser aplicada aqui. A rotina dentro de um vagão lotado de trem é um dos poucos lugares onde o lenço não é utilizado. 

domingo, 4 de agosto de 2024

O macho na cultura pop

Estava na estação de metrô em Salvador quando chegaram três rapazes que sentaram-se ao meu lado e começaram a conversar sobre filmes. Falavam alto, o que tornava impossível não escutar o papo. Chamou-me atenção o fato de um deles ter dito que queria ser como o agente James Bond. 

“O cara pode ter a mulher que ele quer”, afirmou o rapaz.

Pelo contexto da conversa, ele se referia especificamente ao Bond interpretado por Sean Connery. Todos os Bonds do cinema, literatura e outras mídias eram bonitos, charmosos, autoconfiantes e desejados pelas mulheres. Mas o 007 do falecido ator escocês era conhecido por possuir características particulares que forneciam ainda mais carisma e charme ao personagem. Era um Bond viril. 

Portanto, compreensível que existam jovens que queiram ser como ele. Quem não quer ser atraente, corajoso, autoconfiante e com um trabalho foda? Bond se transformou para alguns em uma espécie de “ideal do macho alfa”. E não apenas ele. Em filmes clássicos do noir, por exemplo, o homem durão, belo e imponente é personagem de destaque, que também possui um trabalho emocionante: ser detetive.

Ao refletir sobre essas concepções de masculinidade, é inevitável mencionar um produto comumente usado pelo macho alfa que aparece em filmes do século XX: o cigarro. Por alguma razão, fumar era atrativo. Estar com um cigarro na boca era sexy e fazia o macho parecer ainda mais viril, embora estivesse arruinando o próprio pulmão (nota: na época ainda não havia consenso social formado a respeito dos malefícios desse produto).

No entanto, o tempo trouxe mudanças. Assim como o próprio cigarro foi reconhecido como algo perigoso, a ideia do “macho alfa” também passou a ser criticada. E isso inevitavelmente foi refletido na cultura pop. 

Até o próprio James Bond passou a ser retratado de forma mais realista. Por exemplo, o seu trabalho como espião não tem o glamour que se supõe. Os filmes protagonizados por Daniel Craig demonstram isso de forma competente. Se alguém quiser seguir os passos do personagem e se tornar espião, pode se decepcionar. É possível que o espião da vida real tenha que ser anônimo e precise evitar intrigas amorosas. Envolver-se em aventuras em que haja necessidade de matar está fora de questão. E não há aquele idealismo patriótico. Se há um motivo para não matar espiões do inimigo, é a possibilidade de comprá-los e fazê-los mudar de lado.

Uma ênfase maior no realismo apresenta o Bond de Craig como uma representação complexa e multidimensional para além de ideais como “macho alfa”. Essa desconstrução do “homem viril” não atinge apenas a espionagem da cultura pop. Há obras de ficção detetivesca em que o detetive não é o implacável macho que se envolve como “femmes fatales”, mas possui uma caracterização com várias facetas. Cito como exemplo a obra literária “Brooklyn sem pai nem mãe”, de Jonathan Lethem, em que o protagonista é um homem chamado Lionel Essrog, que sofre com a Síndrome de Tourette, transtorno que o faz ser alvo de desprezo e gozação.

Essa nova abordagem do que é masculino alcançou outras artes, como música, em que a diversidade no rock foi fundamental. Bond e detetives de filmes noir eram homens brancos e com um específico uso de roupas “adequadas” para o macho. 

Contudo, a ascensão do rock popularizou um estilo distinto de moda masculina. As vestes do macho já não eram apenas o terno e a gravata. Com o rock, jeans e jaquetas eram combinadas e tornavam-se a vestimenta “oficial” da rebeldia pregada pelo gênero musical. E mais adiante, figuras do rock também manifestaram rejeição à masculinidade convencional, o que incluía o uso de roupas que “que não são para homens”. David Bowie talvez seja o exemplo mais emblemático.

Compreender Bowie pode parecer algo contraintuitivo. O personagem que ele criou, o andrógino Ziggy Stardust, desafiava as normas tradicionais e binárias de gênero. Era uma maneira de expressar a existência de um novo modelo de "homem" que contrariava estereótipos aceitos pela sociedade. Portanto, há um contexto cultural específico por trás. 

Naquela época, a ideia de que há “roupas de menina” ou “roupa de menino” era muito mais aceita do que é hoje. Se atualmente algum cantor utilizar “roupas de mulher” para se apresentar no palco, não vai causar tanto impacto quanto antigamente. Isso se deve ao fato de que a moda também sofreu mudanças significativas na questão do gênero. No livro “O Império do Efêmero”, o autor Gilles Lipovetsky escreve sobre moda masculina-feminina:

“A divisão enfática e imperativa no parecer dos sexos se esfuma; a igualdade de condições prossegue sua obra, pondo fim ao monopólio feminino da moda e ‘masculinizando’ parcialmente o guarda-roupa feminino.” Mais à frente, Lipovetsky escreve: “O que vemos? Evidentemente, um movimento de redução da diferença enfática entre o masculino e o feminino, movimento de natureza essencialmente democrática”. Isso está no contexto da “moda aberta”, uma realidade que causaria pavor no autor de Deuteronômio, que no capítulo 22, versículo 5 diz: “Não haverá traje de homem na mulher, e não vestirá o homem veste de mulher”.

É importante nos atentarmos a determinados termos no escrito de Lipovetsky: “igualdade de condições” e “natureza essencialmente democrática”. Ambos implicam numa maior diversidade na moda masculina. Para ser considerado “homem”, não é mais necessário se apegar a um estilo rígido. Igualdade e democracia, tanto na moda quanto na percepção do que é masculino, também foram os principais objetivos dos movimentos feminista e LGBTQ+. E não apenas na moda. 

As feministas contestaram a postura que o “macho alfa”, seja o real ou o da cultura pop, tinha com as mulheres. Não faltam acusações de misoginia e machismo contra James Bond e contra seu criador Ian Fleming. As críticas certamente ajudaram a amenizar a forma como Bond é retratado nos cinemas, na literatura ou em qualquer outra mídia.

Os movimentos LGBTQ+ ampliaram a noção do que é ser “homem”, propondo maior inclusividade. Ademais, ajudou a desconstruir a ideia de que “todos os homens são heterossexuais” e a imagem do “homem durão” e insensível. Em séries, filmes e literatura, não é mais incomum a noção de homem que escapa ao modelo “branco, hétero e durão”. 

Voltemos à estação do metrô. Nota-se na conversa dos rapazes um saudosismo de uma masculinidade passada ou de uma característica dela. Contudo, não dá para necessariamente acusá-los de “reacionarismo” (embora existam movimentos retrógrados que se fundamentam no retorno de tal modelo masculino). O ideal do homem passou por diversas transformações e isso se refletiu na cultura pop. Mas não foi e não é um processo linear. Ao admirar o Bond dos anos 1960, o rapaz pode não querer o pacote completo. Alguém pode desejar o charme do espião, porém rejeitar o seu modo de tratar as mulheres. É por isso que não se sabe exatamente qual o “futuro da masculinidade”. Não tem como dizer que estamos caminhando para uma plena desconstrução do homem.

domingo, 28 de julho de 2024

Um bom disco de jazz japonês que foi ignorado pela imprensa

Estava escutando um disco de jazz no Spotify. Quando o álbum encerrou, veio uma sequência de variadas músicas que estão relacionadas ao que acabei de ouvir. A canção, que imediatamente iniciou após o fim do disco, começa com uma combinação instrumental somada a um outro som, que se assemelha a palmas sendo batidas. É como se fosse anunciado o início de um épico.

Refiro-me à música “Walk Tall”, a terceira faixa do disco de jazz japonês “Cat” (1976), do trombonista Hiroshi Suzuki. O álbum possui cinco faixas, mas essa me arrebatou, o que me fez escutá-la várias vezes. Contudo, as outras músicas do álbum também são boas, tornando-o uma produção musical de qualidade que, segundo algumas informações, foi ignorada à época pelas prestigiadas revistas de jazz, tanto as do Japão quanto as ocidentais. Em artigo publicado num site alemão de música, em junho de 2021, o jornalista Björn Bischoff disse: “Quando o disco foi lançado em 25 de fevereiro de 1976, quase ninguém se interessou por ele. Nem mesmo no Japão”.

E o próprio Suzuki, que faleceu em 2020, era um ilustre (quase) desconhecido. Sobre isso, Bischoff diz: “quase não há informações sobre Hiroshi Suzuki na internet, onde os colecionadores de discos mais experientes ainda trocam ideias. Em nenhum outro lugar. Nem mesmo uma entrevista. A busca por um quase desconhecido”.

“Cat” poderia ter sido plenamente esquecido no Japão se a Columbia não tivesse relançado o disco por lá em 2015. Além disso, a Klimt Records também lançou, em 2019, o LP na França, onde teve uma recepção negativa, de acordo com o jornalista do blog alemão.

Que me desculpem os franceses, mas discordo.

O disco pode não ser quintessencial, pois há falhas notáveis. Todavia, não comprometem todo o LP. Bischoff, por exemplo, observa que em “Walk Tall” o baixo dá “errado por um momento”. Porém, ele também reconhece que “a melodia salva a peça”. Eu vou além e afirmo que essa canção é como fosse um épico na forma de jazz.

“Walk Tall” de Suzuki é uma versão da canção homônima tocada pelo “The Cannonball Adderley Quintet” no fim dos anos 1960. Trata-se de um fato nada surpreendente para quem conhece a (escassa) biografia de Suzuki. Quando tinha 38 anos de idade, ele se mudou para os Estados Unidos, onde tocou na banda do baterista Buddy Rich. Em algum momento de sua estadia na América do Norte, ele teve contato com o “Walk Tall” de Cannonball. Para ter incluído a canção em seu próprio LP, só podemos concluir que ele gostou do que ouviu.

Apesar de ser um cover, eu considero que a versão de Suzuki possui contornos mais épicos que a canção original. E por quê? O épico também se caracteriza pela duração. Filmes com mais de três horas de duração são considerados épicos. “Walk Tall” de Suzuki possui 10 minutos e 14 segundos. Muita coisa para uma música de jazz. A música de Cannonball possui 2 minutos e 40 segundos na versão que aparece na compilação “Walk Tall: The David Axelrod Years”. No disco “Country Preacher”, um álbum ao vivo, ultrapassa os cinco minutos. O que ajuda a estender a música de Suzuki são as suas intervenções com o trombone, característica que não há na música original.

Em ambas existe a intervenção instrumental (seja com trombone ou com saxofone) que produz um tom homérico útil para anunciar a vitória do herói. Mas no cover de Suzuki, o tempo é mais longo. É um som que, por alguma razão, gera em mim uma leve euforia. Naturalmente, por ser mais extenso, o cover me permite ter uma sensação de entusiasmo ainda maior.

“Walk Tall” de Suzuki é superior às outras músicas de “Cat”. No entanto, elas têm suas próprias qualidades. A primeira faixa, intitulada “Shrimp Dance”, é lenta e relaxante, como se levasse o ouvinte a uma praia linda e deserta, com uma areia vividamente branca e nivelada que pode servir como uma pista de dança improvisada. A “dança camarão” é remansada a ponto de não desnivelar significativamente a areia. “Kuro To Shiro”, a segunda música, evoca o conceito de contraste (preto e branco). A “dualidade” pretendida é capaz de me tirar da indiferença. A quarta faixa “Cat” consegue ser mais longa que “Walk Tall”, mas não repete seu caráter épico, apesar da duração. Porém, a música possui sua própria singularidade positiva, como o uso cativante do piano. Há momentos em que o piano se torna mais intenso, sugerindo um clímax. Outros instrumentos acompanham e a música se torna candente. A canção final do disco se chama “Romance”. De acordo com o site Who Sampled, essa música transcendeu o jazz japonês, pois foi “sampleado” 87 vezes, inclusive por rappers. A sua sonoridade possui um aspecto sedutor que se torna mais atraente no minuto final.

Com todos esses atributos positivos, a indiferença da imprensa é inexplicável. O jornalista Björn Bischoff tem uma hipótese: “devido ao groove agradável na forma de tocar de Hiroshi Suzuki, este disco pode parecer um pouco discreto”.

Discreto ou não, “Cat” é um álbum de jazz com qualidade acima da média. Suas faixas possuem qualidades singulares e a combinação delas construiu um disco envolvente que vale a pena ser ouvido.

terça-feira, 16 de julho de 2024

O Terceiro Médico

Diferentemente do que muita gente pensa, o inferno pode ser o local onde tem de tudo, menos o diabo e o fogo. Graças à literatura, podemos imaginar o inferno com uma configuração muito distinta daquilo que o cristianismo prega. 

O escritor irlandês Brian O’Nolan usou seu talento literário para elaborar um original post mortem. Na sua obra “O Terceiro Tira” (1967), o protagonista comete um crime horrendo, morre e vai parar num inferno onde há personagens e cenários nonsenses. O intrigante, no entanto, é que as situações estranhas e ruins que acontecem com ele sempre se repetem. Nota-se aí uma característica observada em qualquer inferno: a eternidade. Mas uma diferença fundamental é a repetição dos acontecimentos. 

Posto isso, revelo ao raro leitor que estou numa situação que me faz cogitar a possibilidade de estar em um inferno repetitivo e eterno. 

Há meses, entrei em contato com uma clínica que me atende regularmente. O objetivo maior das minhas visitas é pegar uma receita amarela. Como as agendas dos médicos desse estabelecimento são lotadas, eu costumo esperar, no mínimo, um mês para ser atendido. Sempre foi assim e, apesar de alguns incômodos, eu acabo conseguindo a receita. Contudo, desta vez a situação mudou um pouco.

Eu havia marcado para o início do mês seguinte quando recebi uma ligação da clínica:

- Doutor Fulano de Tal não vai poder te atender no dia marcado. Podemos marcar outra data?

- É claro! Por favor remarque.

- Tudo bem. A próxima consulta é daqui a 47 dias.

- 47 DIAS!?

- Sim, senhor.

- Mas eu preciso pegar as receitas. O remédio está acabando. 

- …

Dei meu jeito. Tentei economizar a medicação para que durasse tempo suficiente até a próxima consulta, mesmo que houvesse o risco de ficar disfuncional.

Os 47 dias se passaram. Vou à clínica. Minha vez chega e vou à sala do médico. Depois dos cumprimentos “protocolares”, ele me dá a má notícia:

- Infelizmente, a receita amarela acabou ontem.

Desabafei, naturalmente.

- Eu esperei 47 dias para isso? - perguntei. 

O médico levantou as mãos de tal maneira, como se dissesse: “não tenho nada a ver com isso!”.

Conversei com as recepcionistas, perguntei quando a receita amarela chegaria. Disseram-me o dia. Pedi que me encaixassem em algum horário no dia em que a receita estaria disponível. Com muita paciência e conversa, consegui convencê-las.

Na semana seguinte, fui à clínica e peguei a receita.

Então, dias depois, marquei novamente uma consulta. Para o início do mês seguinte. E então veio a temida ligação:

- Infelizmente, por motivos de “força maior”, a doutora Ciclana não vai poder te atender no dia agendado. Podemos remarcá-lo?

- Sim, por favor.

- Sua próxima consulta será daqui a 45 dias!

- Meu Deus do céu!

Mais uma vez, tive que me virar. E quando o tempo passou e o dia da consulta chegou, o leitor já pode imaginar o desfecho.

- Não temos receita amarela - disse a médica.

Mais uma vez, conversa e paciência com as atendentes da recepção. E na semana seguinte, fui à clínica num horário “extra” em que me encaixaram. Consigo pegar a receita.

Dias depois, eu ligo e marco outra consulta, a atendente agenda para o início do mês seguinte…

Bom, o leitor já sacou o que vai ocorrer. Talvez eu tenha tido um destino parecido com o do protagonista de “O Terceiro Tira”. Só não me perguntem o que eu fiz para merecer isso, pois não faço a menor ideia. 

Inspirei-me nesse romance para escrever esta crônica, mas diferentemente de O’Nolan, que mostra o “terceiro tira” - personagem que dá nome ao livro -, vou poupar o leitor do “terceiro médico”, a pessoa que me atenderia pela terceira vez seguida no inferno das clínicas.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Romance policial (III)

O assassinato de um prefeito de uma cidade paulista tem sido objeto de teorias conspiratórias que servem como instrumento de demonização política. Segundo a hipótese que surge desses raciocínios mirabolantes, a vítima foi assassinada não por bandidos que queriam o seu dinheiro, mas por sicários a mando de um líder político.

Tal hipótese já foi verificada pela polícia, que constatou o seguinte: trata-se uma teoria sem fundamento. Ainda assim, nas redes sociais, a teoria vai e vem, e quem a dissemina desconsidera as conclusões da investigação. Ou sequer sabe que as forças da lei já desmentiram essa tese. 

O que interessa nesta crônica é a situação em que a polícia acaba sendo colocada ao ter que considerar hipóteses que não levam a nada. E talvez isso seja bastante comum. Pode-se dizer que investigadores também têm o seu “dia de Blue”. Mas o que seria isso?

Estou recorrendo a um dos meus autores favoritos, Paul Auster. Refiro-me a um personagem dele, Blue, que protagoniza o romance “Fantasmas”, obra que faz parte da brilhante “Trilogia de Nova York”. 

No livro, o personagem principal é contratado por um homem chamado White para vigiar um cara chamado Black. A obra de Auster subverte uma das principais premissas do romance policial. Aquela que diz: “a ação criminosa rompe com a ordem e a normalidade”. Blue observa Black, mas este não faz nada fora do comum. Assim, o cotidiano prossegue inabalado. Pode-se dizer que trata-se de um “antirromance policial” ou um “romance antipolicial”. 

Se resolvêssemos adaptar as teorias conspiratórias - que tentam explicar a tragédia do prefeito paulista - para uma história policial, e colocássemos no enredo alguma dose de realismo, o resultado também seria um antirromance. 

Evidentemente, tal crime implica na existência de supostos assassinos. Então, os investigadores do caso (e protagonistas da história) teriam que seguir, observar e ter extrema atenção com os suspeitos. Isso implicaria os personagens numa situação parecida com a de Blue e Black. 

À espera de comportamentos suspeitos relacionados ao caso, os investigadores sofreriam com o fastio. Talvez os observados demonstrassem alguma conduta esquisita, mas não teria a ver com o que estava sendo investigado. Ou pode ser que mesmo não tendo nada a esconder, os investigados pela morte do prefeito tivessem uma vida mais agitada do que a de Black. 

Por causa da modorrenta rotina de Black e do dia escuro, somados à neve que começou a cair e a atrapalhar a visibilidade, Blue ficou sem nada para fazer. Se “Black não parece mais do que uma sombra”, o que ele teria para espiar? No entanto, isso significava que Blue teria tempo para ler seu jornal e suas revistas favoritas. 

Por outro lado, no nosso antirromance sobre o prefeito assassinado, os protagonistas, que vivem no Brasil, não teriam que lidar com a neve. E Blue e Black vivem na década de 1940. Hoje há mais alternativas para se distrair, graças aos avanços tecnológicos. Portanto, um policial brasileiro pode gostar de revista e jornal, mas ele provavelmente tem um smartphone com redes sociais. Imaginei o seguinte diálogo:

“Olha só essa gracinha”, diz investigador A enquanto mostra a tela do seu celular à colega.

“É uma gata!”, afirma investigadora B. “Deu match?”

Possivelmente, os policiais ficariam tão envolvidos na conversa sobre relacionamento que acabariam esquecendo dos alvos de investigação. Mas não se meteriam em encrencas com seus superiores, pois eles não perderiam nada, afinal não estava acontecendo nada de suspeito.

Seria divertido se isso ficasse apenas na ficção. Caso ocorresse de verdade, seria péssimo. O problema, a meu ver, é o desperdício de recursos públicos. Não faz sentido gastar dinheiro com investigações inúteis.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Romance policial (II)

Contaram-me a história de Gilmar, um trabalhador da construção civil, que começou a ser perturbado pelo telefone celular que tocava na madrugada. Não era telemarketing, que gostava de “encher o saco”, mas não costumava ligar nesse horário para a casa dos outros. Na primeira vez que ele atendeu, a voz do outro lado da linha admitiu que cometeria um crime.

“Vou apagar um cara aí na sua área”, disse a voz. 

“Quem está falando?!”

Desligou.

Seria um trote, o cara ligou para o número errado ou era algum maníaco com a intenção de avisar a pessoas aleatórias que iria matar alguém?

Antes de entender a resposta, um pouco de digressão: o telefonema para Gilmar me lembrou de uma obra-prima da literatura: A Trilogia de Nova York, do grande Paul Auster, que faleceu recentemente. Trata-se de uma abordagem pós-moderna da literatura policial. Composto de três histórias, a ideia central é partir da história detetivesca para chegar em questões mais amplas, como identidade e realidade. 

A primeira da histórias, Cidade de Vidro, começa com o telefone do protagonista “tocando três vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali”. Por outro lado, a voz que falou com Gilmar não procurava ninguém e ainda comunicava algo mais grave: que iria assassinar uma pessoa. 

Apesar das diferenças entre as duas situações, não consegui resistir e imaginei que talvez Gilmar acabasse encarando uma luta semelhante ao do protagonista de Cidade de Vidro. Ou seja, que ele ficasse confuso ao adentrar em questões que põem em xeque a realidade e a identidade dele mesmo. 

No entanto, acho que não precisou de perguntas filosóficas para deixar Gilmar e os ouvintes da história do telefonema com sérias dúvidas. Sobre a pergunta de parágrafos atrás, não há resposta conclusiva. De fato, mataram gente na mesma semana que Gilmar recebeu a ligação. Mas ele mora em um bairro violento de Salvador, onde não é incomum pessoas serem assassinadas. 

Portanto, a pessoa que telefonou pode ser, ou não, um assassino. Pode ser, ou não, alguém que passa trotes. Ele deu poucas informações. Fez uma afirmação genérica. Disse que ia matar alguém, mas não especificou onde, quando ou como seria a vítima. Entretanto, um criminoso não seria tão tolo a ponto de revelar tudo isso. Ele acabaria dando a oportunidade para que a vítima fosse salva. 

Em outra imaginação minha, cogitei que, em comparação com Gilmar, esse suposto assassino estaria mais próximo do personagem principal de Cidade de Vidro. Na história de Paul Auster, o protagonista acaba confundindo ficção e realidade. Ele, um escritor de romances policiais, começa a adotar as características de seu detetive fictício. 

Pergunto-me se a voz que falou com Gilmar por telefone seria de um autor de romances policiais que acabou confundindo-se com um de seus personagens, um assassino que telefona para avisar seus crimes, demonstrando uma autoconfiança absurda. 

E já que estou falando de uma história específica de Paul Auster, é de se perguntar: o metafórico título “Cidade de Vidro” é aplicável a Salvador? O vidro é vulnerável à distorção óptica, o que significa que habitantes de uma “cidade de vidro” podem ser vítimas de uma realidade distorcida. 

Armado no banheiro

Estava na praça de alimentação de um modesto shopping localizado em Lauro de Freitas, quando escutei a conversa sobre três rapazes que encon...