quinta-feira, 20 de junho de 2024

Romance policial (III)

O assassinato de um prefeito de uma cidade paulista tem sido objeto de teorias conspiratórias que servem como instrumento de demonização política. Segundo a hipótese que surge desses raciocínios mirabolantes, a vítima foi assassinada não por bandidos que queriam o seu dinheiro, mas por sicários a mando de um líder político.

Tal hipótese já foi verificada pela polícia, que constatou o seguinte: trata-se uma teoria sem fundamento. Ainda assim, nas redes sociais, a teoria vai e vem, e quem a dissemina desconsidera as conclusões da investigação. Ou sequer sabe que as forças da lei já desmentiram essa tese. 

O que interessa nesta crônica é a situação em que a polícia acaba sendo colocada ao ter que considerar hipóteses que não levam a nada. E talvez isso seja bastante comum. Pode-se dizer que investigadores também têm o seu “dia de Blue”. Mas o que seria isso?

Estou recorrendo a um dos meus autores favoritos, Paul Auster. Refiro-me a um personagem dele, Blue, que protagoniza o romance “Fantasmas”, obra que faz parte da brilhante “Trilogia de Nova York”. 

No livro, o personagem principal é contratado por um homem chamado White para vigiar um cara chamado Black. A obra de Auster subverte uma das principais premissas do romance policial. Aquela que diz: “a ação criminosa rompe com a ordem e a normalidade”. Blue observa Black, mas este não faz nada fora do comum. Assim, o cotidiano prossegue inabalado. Pode-se dizer que trata-se de um “antirromance policial” ou um “romance antipolicial”. 

Se resolvêssemos adaptar as teorias conspiratórias - que tentam explicar a tragédia do prefeito paulista - para uma história policial, e colocássemos no enredo alguma dose de realismo, o resultado também seria um antirromance. 

Evidentemente, tal crime implica na existência de supostos assassinos. Então, os investigadores do caso (e protagonistas da história) teriam que seguir, observar e ter extrema atenção com os suspeitos. Isso implicaria os personagens numa situação parecida com a de Blue e Black. 

À espera de comportamentos suspeitos relacionados ao caso, os investigadores sofreriam com o fastio. Talvez os observados demonstrassem alguma conduta esquisita, mas não teria a ver com o que estava sendo investigado. Ou pode ser que mesmo não tendo nada a esconder, os investigados pela morte do prefeito tivessem uma vida mais agitada do que a de Black. 

Por causa da modorrenta rotina de Black e do dia escuro, somados à neve que começou a cair e a atrapalhar a visibilidade, Blue ficou sem nada para fazer. Se “Black não parece mais do que uma sombra”, o que ele teria para espiar? No entanto, isso significava que Blue teria tempo para ler seu jornal e suas revistas favoritas. 

Por outro lado, no nosso antirromance sobre o prefeito assassinado, os protagonistas, que vivem no Brasil, não teriam que lidar com a neve. E Blue e Black vivem na década de 1940. Hoje há mais alternativas para se distrair, graças aos avanços tecnológicos. Portanto, um policial brasileiro pode gostar de revista e jornal, mas ele provavelmente tem um smartphone com redes sociais. Imaginei o seguinte diálogo:

“Olha só essa gracinha”, diz investigador A enquanto mostra a tela do seu celular à colega.

“É uma gata!”, afirma investigadora B. “Deu match?”

Possivelmente, os policiais ficariam tão envolvidos na conversa sobre relacionamento que acabariam esquecendo dos alvos de investigação. Mas não se meteriam em encrencas com seus superiores, pois eles não perderiam nada, afinal não estava acontecendo nada de suspeito.

Seria divertido se isso ficasse apenas na ficção. Caso ocorresse de verdade, seria péssimo. O problema, a meu ver, é o desperdício de recursos públicos. Não faz sentido gastar dinheiro com investigações inúteis.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Romance policial (II)

Contaram-me a história de Gilmar, um trabalhador da construção civil, que começou a ser perturbado pelo telefone celular que tocava na madrugada. Não era telemarketing, que gostava de “encher o saco”, mas não costumava ligar nesse horário para a casa dos outros. Na primeira vez que ele atendeu, a voz do outro lado da linha admitiu que cometeria um crime.

“Vou apagar um cara aí na sua área”, disse a voz. 

“Quem está falando?!”

Desligou.

Seria um trote, o cara ligou para o número errado ou era algum maníaco com a intenção de avisar a pessoas aleatórias que iria matar alguém?

Antes de entender a resposta, um pouco de digressão: o telefonema para Gilmar me lembrou de uma obra-prima da literatura: A Trilogia de Nova York, do grande Paul Auster, que faleceu recentemente. Trata-se de uma abordagem pós-moderna da literatura policial. Composto de três histórias, a ideia central é partir da história detetivesca para chegar em questões mais amplas, como identidade e realidade. 

A primeira da histórias, Cidade de Vidro, começa com o telefone do protagonista “tocando três vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali”. Por outro lado, a voz que falou com Gilmar não procurava ninguém e ainda comunicava algo mais grave: que iria assassinar uma pessoa. 

Apesar das diferenças entre as duas situações, não consegui resistir e imaginei que talvez Gilmar acabasse encarando uma luta semelhante ao do protagonista de Cidade de Vidro. Ou seja, que ele ficasse confuso ao adentrar em questões que põem em xeque a realidade e a identidade dele mesmo. 

No entanto, acho que não precisou de perguntas filosóficas para deixar Gilmar e os ouvintes da história do telefonema com sérias dúvidas. Sobre a pergunta de parágrafos atrás, não há resposta conclusiva. De fato, mataram gente na mesma semana que Gilmar recebeu a ligação. Mas ele mora em um bairro violento de Salvador, onde não é incomum pessoas serem assassinadas. 

Portanto, a pessoa que telefonou pode ser, ou não, um assassino. Pode ser, ou não, alguém que passa trotes. Ele deu poucas informações. Fez uma afirmação genérica. Disse que ia matar alguém, mas não especificou onde, quando ou como seria a vítima. Entretanto, um criminoso não seria tão tolo a ponto de revelar tudo isso. Ele acabaria dando a oportunidade para que a vítima fosse salva. 

Em outra imaginação minha, cogitei que, em comparação com Gilmar, esse suposto assassino estaria mais próximo do personagem principal de Cidade de Vidro. Na história de Paul Auster, o protagonista acaba confundindo ficção e realidade. Ele, um escritor de romances policiais, começa a adotar as características de seu detetive fictício. 

Pergunto-me se a voz que falou com Gilmar por telefone seria de um autor de romances policiais que acabou confundindo-se com um de seus personagens, um assassino que telefona para avisar seus crimes, demonstrando uma autoconfiança absurda. 

E já que estou falando de uma história específica de Paul Auster, é de se perguntar: o metafórico título “Cidade de Vidro” é aplicável a Salvador? O vidro é vulnerável à distorção óptica, o que significa que habitantes de uma “cidade de vidro” podem ser vítimas de uma realidade distorcida. 

O corpo

Compareci a uma universidade para assistir a apresentação de um aluno de mestrado que estava treinando para defender sua dissertação. Na sua pesquisa, ele analisou reportagens televisivas de duas emissoras distintas e concorrentes. Depois de ter assistido trechos dessas duas produções jornalísticas, comecei a refletir comigo mesmo. Uma moça que também estava assistindo o “ensaio” pediu a palavra para fazer comentários e sugestões ao trabalho acadêmico do rapaz. Uma parte da fala dela me incentivou, involuntariamente, a aprofundar a minha reflexão. 

"As reportagens desses canais parecem novelas. Tudo para prender audiência. Tem até trilha sonora", disse a moça. 

Eu concordei, apesar de não ter dito isso para ela e para os demais presentes. Os chamados “programas policialescos” pegam o método visto em folhetins (novelas são folhetins televisivos) e aplicam em reportagens ao vivo para prender a atenção do telespectador e com isso evitar que ele mude de canal. Pode ser também que essas emissoras de TV aprenderam uma das lições do escritor Ian Fleming, o criador de James Bond e autor de vários romances centrados nesse personagem.

Diz Fleming, em seu valioso ensaio “How To Write A Thriller”: “Só existe uma receita de [livro] best-seller e é muito simples. Você tem que fazer o leitor virar a página”. Aplicando esse princípio na televisão, poderíamos ter a seguinte máxima: “Você tem que fazer o leitor ficar longe do controle remoto. No mesmo ensaio, Fleming é sincero: “Escrevo, descaradamente, por prazer e dinheiro”. 

Não há nada de errado nesses conceitos apresentados por Fleming. São até recomendáveis se você quer ganhar algum dinheiro vendendo livros. No entanto, ele referia-se a textos ficcionais. De certa maneira, é possível aplicar também a gêneros não-ficcionais. O problema é que a linguagem da TV é distinta do livro ou do jornal/revista em que o folhetim é publicado. As pessoas reais relacionadas a um crime ou tragédia semelhante têm suas imagens expostas, que servem de matéria-prima para tentar obter audiência. É por isso que a aplicação do “método Folhetim” pode transformar a reportagem televisiva (ao vivo ou não) em algo de caráter sensacionalista.

Em um trechos que nos foi apresentado, o programa televisivo reportava sobre as buscas pelo corpo de um rapaz que havia sido assassinado. O padrão de folhetim foi aplicado, e ficou parecendo que a reportagem estava utilizando do sofrimento alheio para ganhar dinheiro através da audiência. É como se um dos princípios de Fleming, sobre escrever por dinheiro, fosse distorcido pelos produtores, jornalistas e apresentador. Na TV, não havia personagens de ficção. A família do jovem e seus conhecidos eram reais e sofriam. Suas dores eram usadas como munições para prender a atenção de quem assistia. 

E assim como acontece na ficção pulp, há até elemento surpresa. Na produção jornalística em questão, um corpo foi encontrado, mas não era do rapaz desaparecido. Era de outra pessoa, irreconhecível, por causa do estado avançado de decomposição. 

Um verdadeiro horror. 

No trecho que nos foi mostrado, não aparece o desfecho. E não pesquisei para saber. Então, não faço ideia se o corpo do jovem foi encontrado. Apenas sei que a ética jornalística e a empatia estavam mais perdidas que a vítima. 

domingo, 16 de junho de 2024

Romance policial (I)

Em 2005, um homem morreu perto de minha casa. Era dono de um bar, conhecido pelo temperamento forte e por ser um “Dom Casmurro” contemporâneo. Logo todo mundo ficou sabendo que se tratava de suicídio. Havia uma pista que sugeria isso. Ele havia escrito uma frase em que revela o suposto motivo que o levou a tirar a própria vida: o seu clube do coração, um time local que tinha sido rebaixado para a última divisão do futebol nacional.

Algumas pessoas ficaram sabendo, mas não foram convencidas. Diziam que se matar pelo time que torce era “muito pouco”, que havia “algo mais”. Entre esses, alguns especulavam que a razão verdadeira era dinheiro ou mulher.

Houve até mesmo especulações religiosas que tentavam entender para onde foi a alma do pobre homem. Uma mulher mencionou uma teoria que certamente causou horror em evangélicos e católicos, mas que era interessante e original, apesar da “heterodoxia” chocante: o suicida não estaria nem no céu, nem no inferno. Estaria num “espaço vazio e infinito” até Deus decidir o que fazer com a alma dele. Um pastor indignado retrucou.

“Não! Isso está errado. Deus não tem dúvidas. Ele sabe de tudo e por isso sabia o que fazer com a alma daquele homem antes mesmo de acontecer a morte dele”, disse o pastor. “Deus decidiu, apenas não sabemos qual a decisão dele”.

Acho que o assunto durou uma semana e depois caiu no esquecimento.

No entanto, quase dezenove anos depois, a filha do suicida recebeu um telefonema.

“Eu apaguei seu pai.”

A moça começou a soluçar.

“Não brinca com isso, canalha!”

“Não é brincadeira. Eu, Corleone, mandei acabar com ele.”

O suposto assassino estava dizendo que matou o pai dela e fez parecer suicídio. Provável que fosse trote. Mas a brincadeira de mau gosto mexeu com a filha, que resolveu contratar um detetive particular.

O detetive era, diferentemente do suicida, um homem com temperamento moderado. Possuía a mente aberta, gostava das deduções lógicas, do raciocínio geral, da teoria antes do fato. O nome “Corleone” chamou a atenção.

É personagem de um romance intitulado “O Poderoso Chefão”. O engraçadinho gosta de literatura da máfia. A conclusão do investigador foi rápida e contundente:

“É trote. O cara gosta de Mario Puzo”, disse o detetive, enquanto anotava. “Ele usou do personagem para sacanear.”

No entanto, por que a brincadeira envolveu o pai da moça, quando há tanta gente que poderia virar alvo da chalaça? Essa pergunta incomodou o detetive. A sua mente aberta a novas ideias o incentivou a tentar um método incomum.

Em vez de pesquisar suspeitos nos registros policiais, vasculhou o nome “Corleone” em arquivos digitais de ficção na internet. Localizou alguns autores que diziam ser de Salvador, Bahia. Leu cada conto e novela por horas. Até que chegou a uma ficção intrigante. O título: “O falso suicida”. O enredo era assustadoramente idêntico ao que o autor do trote havia dito. Um chefe do tráfico conhecido como “Corleone” ordenara a morte de um homem. A ordem:

“Faça parecer suicídio.”

“Corleone” queria se vingar do homem. E aqui emerge um detalhe que, por motivos óbvios, o sacana do trote não contou. Quando criança, o tal do “Corleone” levava cascudo do cara que ele mandou matar. Ele sentiu tanto ódio que, ao crescer e adquirir poder criminoso, ordenar a morte do homem foi uma das primeiras coisas que fez.

Mas era tudo ficção.

Entretanto, o que importava era o autor da história, que usava um pseudônimo. Ao conversar com parentes do suicida, ele conseguiu descobrir a criança que ficou vingativa ao virar homem. Informou à filha que recebeu o trote.

“Ele é um pobre coitado”, ela disse.

O cara não era chefe do crime. Aquela ficção que escreveu era apenas uma idealização, um desejo oculto dele.

“Corleone” (o autor, não o personagem) apenas externou seu ódio na forma de uma ficção policial - uma ficção ruim, aliás. Assim como há rappers que manifestam a raiva em versos diretos e com linguagem forte. Trata-se de um modo legítimo de colocar a frustração para fora. O único erro de “Corleone” foi passar um trote, brincar com a dor de uma pessoa.

Armado no banheiro

Estava na praça de alimentação de um modesto shopping localizado em Lauro de Freitas, quando escutei a conversa sobre três rapazes que encon...