terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Pescaria de manhã cedo

Qualquer semelhança talvez seja só coincidência.

Ainda eram cinco da manhã quando o pai chamou o filho abruptamente.

- Levanta agora!

O filho deu pulo da cama.

- Mas que diabo… pai, o que há?

- Recebi uma ligação. Não pergunte detalhes. Apenas se arrume e daqui a pouco vamos pra lancha!

- Ligação?! Mas que ligação…

- Eu disse para não perguntar, c…!

O filho abriu o guarda-roupa e recolheu um monte de coisas para colocar numa mochila.

- Estarão aqui daqui a pouco. - disse o pai.

Depois de eles pegarem tudo que precisavam, o filho tranca a porta. Ele e o pai vão apressados até a lancha. Quando chegam, o filho toma um susto. Na lancha, só havia material de pescaria. E o seu irmão também estava lá. Era uma brincadeira do pai, uma pegadinha para sacanear com o filho e fazê-lo ir junto com ele para o alto-mar.

- Se não te chamo de filho da p…, você sabe por quê!

- Sempre te chamo para pescar e você sempre nega. Eu tive que dar um jeito de te tirar cedo da cama.

Foram para alto-mar. Depois de uma hora tentando, nada de peixes. Não pescaram um único sequer. Seria estranho se o pai não fosse um completo fracasso na pescaria. O pai era um incompetente em tudo. Minto: em quase tudo. O homem dominava a arte de multiplicação de patrimônio. Mas estava acontecendo algo realmente estranho. Em circunstâncias normais, outros pescadores estariam zombando do pai, o cara que não pesca nem lixo. Porém, o que se observava era que os outros pescadores também não estavam pescando nada. Bastaram alguns mergulhos para constatar o absurdo: não havia peixe nenhum naquela área!

O outro filho tinha uma teoria: “foi o Partido, pai”. O Partido era a origem de todos os males que atingiam pai, filho e o resto da família. O Partido era onipotente. Corrupção no País? O Partido. Violência urbana onipresente? O Partido. Vaso sanitário entupido? Só pode ser o Partido, oras! Fracasso na pescaria? O Partido. O outro filho ainda cogitou que os pescadores zombavam do pai porque haviam sido pagos pelo Partido.

Portanto, a falta de peixes naquela localidade só pode ser obra do Partido, cuja finalidade maior é ferrar com o pai e a família.

Voltaram para casa por volta das onze da manhã. Nenhum peixe! O consolo é que os pescadores pagos pelo Partido também não pescaram nada. Quando todo mundo é alvo de chacota, ninguém é alvo de chacota.

Foi então que começaram a receber mensagens no Whatsapp. Elas traziam a notícia que explicava o desaparecimento dos peixes naquela área. Peixes-policiais estavam cumprindo mandados de busca e apreensão na casa dos peixes que viviam na localidade. Todavia, ao chegarem, não encontraram ninguém. Pelo visto, não era apenas o pai, o filho e os pescadores que estavam atrás dos peixes. As autoridades do fundo do mar também. A notícia não explicava por que razão os peixes viraram alvo de investigação policial.

Algumas horas depois, os peixes que fugiram da polícia enviaram uma nota conjunta à imprensa alegando inocência e afirmando que estavam sendo vítimas de perseguição. A parte mais importante da nota, no entanto, foi a explicação dada para justificar a ausência de todos os peixes daquela área bem na hora da chegada da polícia.

Ipsis litteris: “saímos das nossas residências muito cedo. Tínhamos ido pescar seres humanos”.

RoniPereira

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