sábado, 24 de agosto de 2024

Armado no banheiro

Estava na praça de alimentação de um modesto shopping localizado em Lauro de Freitas, quando escutei a conversa sobre três rapazes que encontraram um homem armado dentro do banheiro daquele estabelecimento comercial.

Segundo uma mulher que sentava na mesa logo atrás de mim, e conversava com outra moça, um deles disse que o homem estava apontando uma arma para um box que estava de porta fechada.

- Acho que ele queria matar alguém que se escondeu dentro do box. – disse a mulher.

- Matar aqui dentro do shopping? Ele ia causar um estardalhaço. - disse a outra.

Mas o sujeito armado estava usando um silenciador, de acordo com um cara que viu a cena. Ao ser flagrado pelos rapazes, o homem guardou a arma rapidamente e saiu às pressas do shopping. A pergunta que surge é: por que ele não disparou em quem o viu e depois terminou o suposto serviço?

Essa questão é apenas uma das inúmeras que podem ser elaboradas pelo espírito curioso. O evento no banheiro certamente carrega uma ou mais tramas que estão ocultas aos nossos olhos.

É por isso que é inevitável comparar eventos que acontecem na vida real com um conto de ficção. Nas suas “Teses sobre o conto”, o autor argentino Ricardo Piglia escreveu que “um conto sempre conta duas histórias”. Contudo, um evento que acontece na realidade também vai além daquilo que aparece no primeiro plano. Em segredo, um ou mais eventos vão se construindo por baixo do ocorrido que está na superfície. O homem armado no banheiro coletivo é a parte visível de algo muito maior. Nesse caso, enquanto a polícia e o jornalismo investigativo não desvendam o que culminou nesse acontecimento, as pessoas vão elaborando conjecturas.

Isso evidencia a relevância do oculto (para o bem ou para o mal) tanto na realidade quanto na ficção.

É claro que há quem desconfie dessa tese, como o autor do Evangelho de Lucas. Ele acreditava que o oculto era temporário. No versículo 8, capítulo 17, Jesus diz que “não há nada oculto que não venha a ser revelado”. O trecho, que faz parte da parábola da candeia, sugere que nada escapa da conspicuidade. Mas a história e a ficção conseguem desmontar esse otimismo cristão.

Por exemplo, até hoje ninguém sabe quais as motivações exatas que levaram Lee Harvey Oswald a atirar no presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, em 22 de novembro de 1963. E ninguém sabe quem foi que enviou uma carta acusando Camilo de ser “imoral e pérfido”, no conto “A Cartomante”, de Machado de Assis.

São exemplos que estimulam a imaginação das pessoas. O oculto indecifrável abre uma “lacuna” que só pode ser preenchida pela teoria conspiratória, pelos palpites e pelas hipóteses. Pode-se dizer que o oculto incentiva um tipo específico de mercado. Há livros, filmes, documentários que procuram responder questões insolucionáveis.

Observe quantas produções foram criadas para desvendar a obscura identidade de “Jack, o Estripador”, cujos assassinatos chocaram a Inglaterra vitoriana. Acredito que ninguém daquela época foi capaz de cogitar que o brutal homicida se tornaria um enigma que atravessaria as eras.

Como ninguém agora acredita que a identidade do homem armado no banheiro se tornará assunto de livros daqui a 300 anos. É até interessante pensar o tipo de trama complexa que há por baixo do ocorrido no banheiro. Pode até ser uma trama internacional de espionagem ou um confronto entre matadores de aluguel. Cogitar hipóteses parece divertido. Mas o oculto tem um lado claramente horrendo: sem desvendar o crime, o bandido continuará solto e permanecerá escondido à vista de todos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Metrô superlotado

A superlotação do metrô é um fenômeno comum nos grandes centros brasileiros. Mas o sistema metroviário de Salvador possui uma particularidade que deveria colocá-lo nos anais da literatura universal.

Do lado de fora do vagão do trem lotado, os costumes da civilização acabam inibindo ou amenizando uma característica que pode florescer no espírito humano e que se mostrou útil às artes e ao jornalismo: a ironia. O filósofo Friedrich Nietzsche acreditava que a moral domesticava o ser humano. Vou além e digo que a moral também impõe controle social sobre o espírito irônico. O sarcasmo pode parecer grosseria, segundo os nossos valores.

Contudo, no metrô entupido de gente, a situação muda significativamente. Ali dentro parece um mundo à parte, longe das amarras morais. É como se o cotidiano no vagão superlotado emergisse das penas do grande Machado de Assis. Ou é como se os passageiros incorporassem o espírito do autor carioca. Vi isso de perto.

A criatividade irônica se solta à medida que o alto-falante da empresa responsável por esse transporte vai comunicando mensagens repetitivas e monótonas. 

Por exemplo:

- O metrô de Salvador está se esforçando para que você tenha o maior conforto. - diz o alto-falante.

- Estamos super confortáveis, não é, pessoal? - pergunta um passageiro.

Todo mundo, inclusive eu, responde: 

- Simmmmm! 

Depois caímos na risada. 

Outro exemplo:

- Todos os dias, o metrô toma as medidas necessárias para garantir espaço e comodidade.

Uma mulher, que estava espremida entre várias pessoas, disse:

- Tem razão, metrô! Eu mesma estou desfrutando desse maravilhoso espaço!

Algumas pessoas gargalham. 

Mais uma vez o alto-falante se pronuncia:

- Uma dica para você, passageiro: escolha sempre os vagões das extremidades. Será mais fácil para você encontrar um lugar para se sentar.

Eu e muita gente estávamos em um desses vagões.

Uma outra mulher disse:

- Ideia brilhante, não? Ela (a voz do alto-falante era feminina) diz isso para qualquer pessoa ouvir. O fato de eu mal conseguir me mover, e de sequer conseguir me abaixar para pegar meu cartão que caiu, demonstra que todo mundo seguiu essa dica. Não é verdade, pessoal?

Todos, incluindo eu, respondem: 

- Com certezaaaaaa!

Pode-se dizer que o aperto (literal e figurado) faz o ironista. Porém, ninguém quer ficar tanto tempo dentro de um transporte que mais parece uma lata de sardinha ambulante. Portanto, a natureza do homem sarcástico de metrô é efêmera. Um autor dentro do vagão, e que queira trabalhar com a ironia pós-moderna em sua obra, encontrará muito material para escrever. Todavia, quando o metrô chegar na estação final, e as pessoas saírem, o espírito de chalaça será dominado pelas correntes da moral.

Ou melhor dizendo, a ironia será escondida pela civilização, assim como a coriza é ocultada pelo lenço. Peguei essa metáfora de Machado de Assis, que em uma crônica do dia 14 de junho de 1885 escreveu: “a civilização, que não inventou o defluxo, inventou o lenço, que dissimula o defluxo, guardando no bolso os seus defeitos”. Ele não referia à ironia, mas a linguagem figurada pode ser aplicada aqui. A rotina dentro de um vagão lotado de trem é um dos poucos lugares onde o lenço não é utilizado. 

domingo, 4 de agosto de 2024

O macho na cultura pop

Estava na estação de metrô em Salvador quando chegaram três rapazes que sentaram-se ao meu lado e começaram a conversar sobre filmes. Falavam alto, o que tornava impossível não escutar o papo. Chamou-me atenção o fato de um deles ter dito que queria ser como o agente James Bond. 

“O cara pode ter a mulher que ele quer”, afirmou o rapaz.

Pelo contexto da conversa, ele se referia especificamente ao Bond interpretado por Sean Connery. Todos os Bonds do cinema, literatura e outras mídias eram bonitos, charmosos, autoconfiantes e desejados pelas mulheres. Mas o 007 do falecido ator escocês era conhecido por possuir características particulares que forneciam ainda mais carisma e charme ao personagem. Era um Bond viril. 

Portanto, compreensível que existam jovens que queiram ser como ele. Quem não quer ser atraente, corajoso, autoconfiante e com um trabalho foda? Bond se transformou para alguns em uma espécie de “ideal do macho alfa”. E não apenas ele. Em filmes clássicos do noir, por exemplo, o homem durão, belo e imponente é personagem de destaque, que também possui um trabalho emocionante: ser detetive.

Ao refletir sobre essas concepções de masculinidade, é inevitável mencionar um produto comumente usado pelo macho alfa que aparece em filmes do século XX: o cigarro. Por alguma razão, fumar era atrativo. Estar com um cigarro na boca era sexy e fazia o macho parecer ainda mais viril, embora estivesse arruinando o próprio pulmão (nota: na época ainda não havia consenso social formado a respeito dos malefícios desse produto).

No entanto, o tempo trouxe mudanças. Assim como o próprio cigarro foi reconhecido como algo perigoso, a ideia do “macho alfa” também passou a ser criticada. E isso inevitavelmente foi refletido na cultura pop. 

Até o próprio James Bond passou a ser retratado de forma mais realista. Por exemplo, o seu trabalho como espião não tem o glamour que se supõe. Os filmes protagonizados por Daniel Craig demonstram isso de forma competente. Se alguém quiser seguir os passos do personagem e se tornar espião, pode se decepcionar. É possível que o espião da vida real tenha que ser anônimo e precise evitar intrigas amorosas. Envolver-se em aventuras em que haja necessidade de matar está fora de questão. E não há aquele idealismo patriótico. Se há um motivo para não matar espiões do inimigo, é a possibilidade de comprá-los e fazê-los mudar de lado.

Uma ênfase maior no realismo apresenta o Bond de Craig como uma representação complexa e multidimensional para além de ideais como “macho alfa”. Essa desconstrução do “homem viril” não atinge apenas a espionagem da cultura pop. Há obras de ficção detetivesca em que o detetive não é o implacável macho que se envolve como “femmes fatales”, mas possui uma caracterização com várias facetas. Cito como exemplo a obra literária “Brooklyn sem pai nem mãe”, de Jonathan Lethem, em que o protagonista é um homem chamado Lionel Essrog, que sofre com a Síndrome de Tourette, transtorno que o faz ser alvo de desprezo e gozação.

Essa nova abordagem do que é masculino alcançou outras artes, como música, em que a diversidade no rock foi fundamental. Bond e detetives de filmes noir eram homens brancos e com um específico uso de roupas “adequadas” para o macho. 

Contudo, a ascensão do rock popularizou um estilo distinto de moda masculina. As vestes do macho já não eram apenas o terno e a gravata. Com o rock, jeans e jaquetas eram combinadas e tornavam-se a vestimenta “oficial” da rebeldia pregada pelo gênero musical. E mais adiante, figuras do rock também manifestaram rejeição à masculinidade convencional, o que incluía o uso de roupas que “que não são para homens”. David Bowie talvez seja o exemplo mais emblemático.

Compreender Bowie pode parecer algo contraintuitivo. O personagem que ele criou, o andrógino Ziggy Stardust, desafiava as normas tradicionais e binárias de gênero. Era uma maneira de expressar a existência de um novo modelo de "homem" que contrariava estereótipos aceitos pela sociedade. Portanto, há um contexto cultural específico por trás. 

Naquela época, a ideia de que há “roupas de menina” ou “roupa de menino” era muito mais aceita do que é hoje. Se atualmente algum cantor utilizar “roupas de mulher” para se apresentar no palco, não vai causar tanto impacto quanto antigamente. Isso se deve ao fato de que a moda também sofreu mudanças significativas na questão do gênero. No livro “O Império do Efêmero”, o autor Gilles Lipovetsky escreve sobre moda masculina-feminina:

“A divisão enfática e imperativa no parecer dos sexos se esfuma; a igualdade de condições prossegue sua obra, pondo fim ao monopólio feminino da moda e ‘masculinizando’ parcialmente o guarda-roupa feminino.” Mais à frente, Lipovetsky escreve: “O que vemos? Evidentemente, um movimento de redução da diferença enfática entre o masculino e o feminino, movimento de natureza essencialmente democrática”. Isso está no contexto da “moda aberta”, uma realidade que causaria pavor no autor de Deuteronômio, que no capítulo 22, versículo 5 diz: “Não haverá traje de homem na mulher, e não vestirá o homem veste de mulher”.

É importante nos atentarmos a determinados termos no escrito de Lipovetsky: “igualdade de condições” e “natureza essencialmente democrática”. Ambos implicam numa maior diversidade na moda masculina. Para ser considerado “homem”, não é mais necessário se apegar a um estilo rígido. Igualdade e democracia, tanto na moda quanto na percepção do que é masculino, também foram os principais objetivos dos movimentos feminista e LGBTQ+. E não apenas na moda. 

As feministas contestaram a postura que o “macho alfa”, seja o real ou o da cultura pop, tinha com as mulheres. Não faltam acusações de misoginia e machismo contra James Bond e contra seu criador Ian Fleming. As críticas certamente ajudaram a amenizar a forma como Bond é retratado nos cinemas, na literatura ou em qualquer outra mídia.

Os movimentos LGBTQ+ ampliaram a noção do que é ser “homem”, propondo maior inclusividade. Ademais, ajudou a desconstruir a ideia de que “todos os homens são heterossexuais” e a imagem do “homem durão” e insensível. Em séries, filmes e literatura, não é mais incomum a noção de homem que escapa ao modelo “branco, hétero e durão”. 

Voltemos à estação do metrô. Nota-se na conversa dos rapazes um saudosismo de uma masculinidade passada ou de uma característica dela. Contudo, não dá para necessariamente acusá-los de “reacionarismo” (embora existam movimentos retrógrados que se fundamentam no retorno de tal modelo masculino). O ideal do homem passou por diversas transformações e isso se refletiu na cultura pop. Mas não foi e não é um processo linear. Ao admirar o Bond dos anos 1960, o rapaz pode não querer o pacote completo. Alguém pode desejar o charme do espião, porém rejeitar o seu modo de tratar as mulheres. É por isso que não se sabe exatamente qual o “futuro da masculinidade”. Não tem como dizer que estamos caminhando para uma plena desconstrução do homem.

Armado no banheiro

Estava na praça de alimentação de um modesto shopping localizado em Lauro de Freitas, quando escutei a conversa sobre três rapazes que encon...