sábado, 24 de agosto de 2024

Armado no banheiro

Estava na praça de alimentação de um modesto shopping localizado em Lauro de Freitas, quando escutei a conversa sobre três rapazes que encontraram um homem armado dentro do banheiro daquele estabelecimento comercial.

Segundo uma mulher que sentava na mesa logo atrás de mim, e conversava com outra moça, um deles disse que o homem estava apontando uma arma para um box que estava de porta fechada.

- Acho que ele queria matar alguém que se escondeu dentro do box. – disse a mulher.

- Matar aqui dentro do shopping? Ele ia causar um estardalhaço. - disse a outra.

Mas o sujeito armado estava usando um silenciador, de acordo com um cara que viu a cena. Ao ser flagrado pelos rapazes, o homem guardou a arma rapidamente e saiu às pressas do shopping. A pergunta que surge é: por que ele não disparou em quem o viu e depois terminou o suposto serviço?

Essa questão é apenas uma das inúmeras que podem ser elaboradas pelo espírito curioso. O evento no banheiro certamente carrega uma ou mais tramas que estão ocultas aos nossos olhos.

É por isso que é inevitável comparar eventos que acontecem na vida real com um conto de ficção. Nas suas “Teses sobre o conto”, o autor argentino Ricardo Piglia escreveu que “um conto sempre conta duas histórias”. Contudo, um evento que acontece na realidade também vai além daquilo que aparece no primeiro plano. Em segredo, um ou mais eventos vão se construindo por baixo do ocorrido que está na superfície. O homem armado no banheiro coletivo é a parte visível de algo muito maior. Nesse caso, enquanto a polícia e o jornalismo investigativo não desvendam o que culminou nesse acontecimento, as pessoas vão elaborando conjecturas.

Isso evidencia a relevância do oculto (para o bem ou para o mal) tanto na realidade quanto na ficção.

É claro que há quem desconfie dessa tese, como o autor do Evangelho de Lucas. Ele acreditava que o oculto era temporário. No versículo 8, capítulo 17, Jesus diz que “não há nada oculto que não venha a ser revelado”. O trecho, que faz parte da parábola da candeia, sugere que nada escapa da conspicuidade. Mas a história e a ficção conseguem desmontar esse otimismo cristão.

Por exemplo, até hoje ninguém sabe quais as motivações exatas que levaram Lee Harvey Oswald a atirar no presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, em 22 de novembro de 1963. E ninguém sabe quem foi que enviou uma carta acusando Camilo de ser “imoral e pérfido”, no conto “A Cartomante”, de Machado de Assis.

São exemplos que estimulam a imaginação das pessoas. O oculto indecifrável abre uma “lacuna” que só pode ser preenchida pela teoria conspiratória, pelos palpites e pelas hipóteses. Pode-se dizer que o oculto incentiva um tipo específico de mercado. Há livros, filmes, documentários que procuram responder questões insolucionáveis.

Observe quantas produções foram criadas para desvendar a obscura identidade de “Jack, o Estripador”, cujos assassinatos chocaram a Inglaterra vitoriana. Acredito que ninguém daquela época foi capaz de cogitar que o brutal homicida se tornaria um enigma que atravessaria as eras.

Como ninguém agora acredita que a identidade do homem armado no banheiro se tornará assunto de livros daqui a 300 anos. É até interessante pensar o tipo de trama complexa que há por baixo do ocorrido no banheiro. Pode até ser uma trama internacional de espionagem ou um confronto entre matadores de aluguel. Cogitar hipóteses parece divertido. Mas o oculto tem um lado claramente horrendo: sem desvendar o crime, o bandido continuará solto e permanecerá escondido à vista de todos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Metrô superlotado

A superlotação do metrô é um fenômeno comum nos grandes centros brasileiros. Mas o sistema metroviário de Salvador possui uma particularidade que deveria colocá-lo nos anais da literatura universal.

Do lado de fora do vagão do trem lotado, os costumes da civilização acabam inibindo ou amenizando uma característica que pode florescer no espírito humano e que se mostrou útil às artes e ao jornalismo: a ironia. O filósofo Friedrich Nietzsche acreditava que a moral domesticava o ser humano. Vou além e digo que a moral também impõe controle social sobre o espírito irônico. O sarcasmo pode parecer grosseria, segundo os nossos valores.

Contudo, no metrô entupido de gente, a situação muda significativamente. Ali dentro parece um mundo à parte, longe das amarras morais. É como se o cotidiano no vagão superlotado emergisse das penas do grande Machado de Assis. Ou é como se os passageiros incorporassem o espírito do autor carioca. Vi isso de perto.

A criatividade irônica se solta à medida que o alto-falante da empresa responsável por esse transporte vai comunicando mensagens repetitivas e monótonas. 

Por exemplo:

- O metrô de Salvador está se esforçando para que você tenha o maior conforto. - diz o alto-falante.

- Estamos super confortáveis, não é, pessoal? - pergunta um passageiro.

Todo mundo, inclusive eu, responde: 

- Simmmmm! 

Depois caímos na risada. 

Outro exemplo:

- Todos os dias, o metrô toma as medidas necessárias para garantir espaço e comodidade.

Uma mulher, que estava espremida entre várias pessoas, disse:

- Tem razão, metrô! Eu mesma estou desfrutando desse maravilhoso espaço!

Algumas pessoas gargalham. 

Mais uma vez o alto-falante se pronuncia:

- Uma dica para você, passageiro: escolha sempre os vagões das extremidades. Será mais fácil para você encontrar um lugar para se sentar.

Eu e muita gente estávamos em um desses vagões.

Uma outra mulher disse:

- Ideia brilhante, não? Ela (a voz do alto-falante era feminina) diz isso para qualquer pessoa ouvir. O fato de eu mal conseguir me mover, e de sequer conseguir me abaixar para pegar meu cartão que caiu, demonstra que todo mundo seguiu essa dica. Não é verdade, pessoal?

Todos, incluindo eu, respondem: 

- Com certezaaaaaa!

Pode-se dizer que o aperto (literal e figurado) faz o ironista. Porém, ninguém quer ficar tanto tempo dentro de um transporte que mais parece uma lata de sardinha ambulante. Portanto, a natureza do homem sarcástico de metrô é efêmera. Um autor dentro do vagão, e que queira trabalhar com a ironia pós-moderna em sua obra, encontrará muito material para escrever. Todavia, quando o metrô chegar na estação final, e as pessoas saírem, o espírito de chalaça será dominado pelas correntes da moral.

Ou melhor dizendo, a ironia será escondida pela civilização, assim como a coriza é ocultada pelo lenço. Peguei essa metáfora de Machado de Assis, que em uma crônica do dia 14 de junho de 1885 escreveu: “a civilização, que não inventou o defluxo, inventou o lenço, que dissimula o defluxo, guardando no bolso os seus defeitos”. Ele não referia à ironia, mas a linguagem figurada pode ser aplicada aqui. A rotina dentro de um vagão lotado de trem é um dos poucos lugares onde o lenço não é utilizado. 

domingo, 4 de agosto de 2024

O macho na cultura pop

Estava na estação de metrô em Salvador quando chegaram três rapazes que sentaram-se ao meu lado e começaram a conversar sobre filmes. Falavam alto, o que tornava impossível não escutar o papo. Chamou-me atenção o fato de um deles ter dito que queria ser como o agente James Bond. 

“O cara pode ter a mulher que ele quer”, afirmou o rapaz.

Pelo contexto da conversa, ele se referia especificamente ao Bond interpretado por Sean Connery. Todos os Bonds do cinema, literatura e outras mídias eram bonitos, charmosos, autoconfiantes e desejados pelas mulheres. Mas o 007 do falecido ator escocês era conhecido por possuir características particulares que forneciam ainda mais carisma e charme ao personagem. Era um Bond viril. 

Portanto, compreensível que existam jovens que queiram ser como ele. Quem não quer ser atraente, corajoso, autoconfiante e com um trabalho foda? Bond se transformou para alguns em uma espécie de “ideal do macho alfa”. E não apenas ele. Em filmes clássicos do noir, por exemplo, o homem durão, belo e imponente é personagem de destaque, que também possui um trabalho emocionante: ser detetive.

Ao refletir sobre essas concepções de masculinidade, é inevitável mencionar um produto comumente usado pelo macho alfa que aparece em filmes do século XX: o cigarro. Por alguma razão, fumar era atrativo. Estar com um cigarro na boca era sexy e fazia o macho parecer ainda mais viril, embora estivesse arruinando o próprio pulmão (nota: na época ainda não havia consenso social formado a respeito dos malefícios desse produto).

No entanto, o tempo trouxe mudanças. Assim como o próprio cigarro foi reconhecido como algo perigoso, a ideia do “macho alfa” também passou a ser criticada. E isso inevitavelmente foi refletido na cultura pop. 

Até o próprio James Bond passou a ser retratado de forma mais realista. Por exemplo, o seu trabalho como espião não tem o glamour que se supõe. Os filmes protagonizados por Daniel Craig demonstram isso de forma competente. Se alguém quiser seguir os passos do personagem e se tornar espião, pode se decepcionar. É possível que o espião da vida real tenha que ser anônimo e precise evitar intrigas amorosas. Envolver-se em aventuras em que haja necessidade de matar está fora de questão. E não há aquele idealismo patriótico. Se há um motivo para não matar espiões do inimigo, é a possibilidade de comprá-los e fazê-los mudar de lado.

Uma ênfase maior no realismo apresenta o Bond de Craig como uma representação complexa e multidimensional para além de ideais como “macho alfa”. Essa desconstrução do “homem viril” não atinge apenas a espionagem da cultura pop. Há obras de ficção detetivesca em que o detetive não é o implacável macho que se envolve como “femmes fatales”, mas possui uma caracterização com várias facetas. Cito como exemplo a obra literária “Brooklyn sem pai nem mãe”, de Jonathan Lethem, em que o protagonista é um homem chamado Lionel Essrog, que sofre com a Síndrome de Tourette, transtorno que o faz ser alvo de desprezo e gozação.

Essa nova abordagem do que é masculino alcançou outras artes, como música, em que a diversidade no rock foi fundamental. Bond e detetives de filmes noir eram homens brancos e com um específico uso de roupas “adequadas” para o macho. 

Contudo, a ascensão do rock popularizou um estilo distinto de moda masculina. As vestes do macho já não eram apenas o terno e a gravata. Com o rock, jeans e jaquetas eram combinadas e tornavam-se a vestimenta “oficial” da rebeldia pregada pelo gênero musical. E mais adiante, figuras do rock também manifestaram rejeição à masculinidade convencional, o que incluía o uso de roupas que “que não são para homens”. David Bowie talvez seja o exemplo mais emblemático.

Compreender Bowie pode parecer algo contraintuitivo. O personagem que ele criou, o andrógino Ziggy Stardust, desafiava as normas tradicionais e binárias de gênero. Era uma maneira de expressar a existência de um novo modelo de "homem" que contrariava estereótipos aceitos pela sociedade. Portanto, há um contexto cultural específico por trás. 

Naquela época, a ideia de que há “roupas de menina” ou “roupa de menino” era muito mais aceita do que é hoje. Se atualmente algum cantor utilizar “roupas de mulher” para se apresentar no palco, não vai causar tanto impacto quanto antigamente. Isso se deve ao fato de que a moda também sofreu mudanças significativas na questão do gênero. No livro “O Império do Efêmero”, o autor Gilles Lipovetsky escreve sobre moda masculina-feminina:

“A divisão enfática e imperativa no parecer dos sexos se esfuma; a igualdade de condições prossegue sua obra, pondo fim ao monopólio feminino da moda e ‘masculinizando’ parcialmente o guarda-roupa feminino.” Mais à frente, Lipovetsky escreve: “O que vemos? Evidentemente, um movimento de redução da diferença enfática entre o masculino e o feminino, movimento de natureza essencialmente democrática”. Isso está no contexto da “moda aberta”, uma realidade que causaria pavor no autor de Deuteronômio, que no capítulo 22, versículo 5 diz: “Não haverá traje de homem na mulher, e não vestirá o homem veste de mulher”.

É importante nos atentarmos a determinados termos no escrito de Lipovetsky: “igualdade de condições” e “natureza essencialmente democrática”. Ambos implicam numa maior diversidade na moda masculina. Para ser considerado “homem”, não é mais necessário se apegar a um estilo rígido. Igualdade e democracia, tanto na moda quanto na percepção do que é masculino, também foram os principais objetivos dos movimentos feminista e LGBTQ+. E não apenas na moda. 

As feministas contestaram a postura que o “macho alfa”, seja o real ou o da cultura pop, tinha com as mulheres. Não faltam acusações de misoginia e machismo contra James Bond e contra seu criador Ian Fleming. As críticas certamente ajudaram a amenizar a forma como Bond é retratado nos cinemas, na literatura ou em qualquer outra mídia.

Os movimentos LGBTQ+ ampliaram a noção do que é ser “homem”, propondo maior inclusividade. Ademais, ajudou a desconstruir a ideia de que “todos os homens são heterossexuais” e a imagem do “homem durão” e insensível. Em séries, filmes e literatura, não é mais incomum a noção de homem que escapa ao modelo “branco, hétero e durão”. 

Voltemos à estação do metrô. Nota-se na conversa dos rapazes um saudosismo de uma masculinidade passada ou de uma característica dela. Contudo, não dá para necessariamente acusá-los de “reacionarismo” (embora existam movimentos retrógrados que se fundamentam no retorno de tal modelo masculino). O ideal do homem passou por diversas transformações e isso se refletiu na cultura pop. Mas não foi e não é um processo linear. Ao admirar o Bond dos anos 1960, o rapaz pode não querer o pacote completo. Alguém pode desejar o charme do espião, porém rejeitar o seu modo de tratar as mulheres. É por isso que não se sabe exatamente qual o “futuro da masculinidade”. Não tem como dizer que estamos caminhando para uma plena desconstrução do homem.

domingo, 28 de julho de 2024

Um bom disco de jazz japonês que foi ignorado pela imprensa

Estava escutando um disco de jazz no Spotify. Quando o álbum encerrou, veio uma sequência de variadas músicas que estão relacionadas ao que acabei de ouvir. A canção, que imediatamente iniciou após o fim do disco, começa com uma combinação instrumental somada a um outro som, que se assemelha a palmas sendo batidas. É como se fosse anunciado o início de um épico.

Refiro-me à música “Walk Tall”, a terceira faixa do disco de jazz japonês “Cat” (1976), do trombonista Hiroshi Suzuki. O álbum possui cinco faixas, mas essa me arrebatou, o que me fez escutá-la várias vezes. Contudo, as outras músicas do álbum também são boas, tornando-o uma produção musical de qualidade que, segundo algumas informações, foi ignorada à época pelas prestigiadas revistas de jazz, tanto as do Japão quanto as ocidentais. Em artigo publicado num site alemão de música, em junho de 2021, o jornalista Björn Bischoff disse: “Quando o disco foi lançado em 25 de fevereiro de 1976, quase ninguém se interessou por ele. Nem mesmo no Japão”.

E o próprio Suzuki, que faleceu em 2020, era um ilustre (quase) desconhecido. Sobre isso, Bischoff diz: “quase não há informações sobre Hiroshi Suzuki na internet, onde os colecionadores de discos mais experientes ainda trocam ideias. Em nenhum outro lugar. Nem mesmo uma entrevista. A busca por um quase desconhecido”.

“Cat” poderia ter sido plenamente esquecido no Japão se a Columbia não tivesse relançado o disco por lá em 2015. Além disso, a Klimt Records também lançou, em 2019, o LP na França, onde teve uma recepção negativa, de acordo com o jornalista do blog alemão.

Que me desculpem os franceses, mas discordo.

O disco pode não ser quintessencial, pois há falhas notáveis. Todavia, não comprometem todo o LP. Bischoff, por exemplo, observa que em “Walk Tall” o baixo dá “errado por um momento”. Porém, ele também reconhece que “a melodia salva a peça”. Eu vou além e afirmo que essa canção é como fosse um épico na forma de jazz.

“Walk Tall” de Suzuki é uma versão da canção homônima tocada pelo “The Cannonball Adderley Quintet” no fim dos anos 1960. Trata-se de um fato nada surpreendente para quem conhece a (escassa) biografia de Suzuki. Quando tinha 38 anos de idade, ele se mudou para os Estados Unidos, onde tocou na banda do baterista Buddy Rich. Em algum momento de sua estadia na América do Norte, ele teve contato com o “Walk Tall” de Cannonball. Para ter incluído a canção em seu próprio LP, só podemos concluir que ele gostou do que ouviu.

Apesar de ser um cover, eu considero que a versão de Suzuki possui contornos mais épicos que a canção original. E por quê? O épico também se caracteriza pela duração. Filmes com mais de três horas de duração são considerados épicos. “Walk Tall” de Suzuki possui 10 minutos e 14 segundos. Muita coisa para uma música de jazz. A música de Cannonball possui 2 minutos e 40 segundos na versão que aparece na compilação “Walk Tall: The David Axelrod Years”. No disco “Country Preacher”, um álbum ao vivo, ultrapassa os cinco minutos. O que ajuda a estender a música de Suzuki são as suas intervenções com o trombone, característica que não há na música original.

Em ambas existe a intervenção instrumental (seja com trombone ou com saxofone) que produz um tom homérico útil para anunciar a vitória do herói. Mas no cover de Suzuki, o tempo é mais longo. É um som que, por alguma razão, gera em mim uma leve euforia. Naturalmente, por ser mais extenso, o cover me permite ter uma sensação de entusiasmo ainda maior.

“Walk Tall” de Suzuki é superior às outras músicas de “Cat”. No entanto, elas têm suas próprias qualidades. A primeira faixa, intitulada “Shrimp Dance”, é lenta e relaxante, como se levasse o ouvinte a uma praia linda e deserta, com uma areia vividamente branca e nivelada que pode servir como uma pista de dança improvisada. A “dança camarão” é remansada a ponto de não desnivelar significativamente a areia. “Kuro To Shiro”, a segunda música, evoca o conceito de contraste (preto e branco). A “dualidade” pretendida é capaz de me tirar da indiferença. A quarta faixa “Cat” consegue ser mais longa que “Walk Tall”, mas não repete seu caráter épico, apesar da duração. Porém, a música possui sua própria singularidade positiva, como o uso cativante do piano. Há momentos em que o piano se torna mais intenso, sugerindo um clímax. Outros instrumentos acompanham e a música se torna candente. A canção final do disco se chama “Romance”. De acordo com o site Who Sampled, essa música transcendeu o jazz japonês, pois foi “sampleado” 87 vezes, inclusive por rappers. A sua sonoridade possui um aspecto sedutor que se torna mais atraente no minuto final.

Com todos esses atributos positivos, a indiferença da imprensa é inexplicável. O jornalista Björn Bischoff tem uma hipótese: “devido ao groove agradável na forma de tocar de Hiroshi Suzuki, este disco pode parecer um pouco discreto”.

Discreto ou não, “Cat” é um álbum de jazz com qualidade acima da média. Suas faixas possuem qualidades singulares e a combinação delas construiu um disco envolvente que vale a pena ser ouvido.

terça-feira, 16 de julho de 2024

O Terceiro Médico

Diferentemente do que muita gente pensa, o inferno pode ser o local onde tem de tudo, menos o diabo e o fogo. Graças à literatura, podemos imaginar o inferno com uma configuração muito distinta daquilo que o cristianismo prega. 

O escritor irlandês Brian O’Nolan usou seu talento literário para elaborar um original post mortem. Na sua obra “O Terceiro Tira” (1967), o protagonista comete um crime horrendo, morre e vai parar num inferno onde há personagens e cenários nonsenses. O intrigante, no entanto, é que as situações estranhas e ruins que acontecem com ele sempre se repetem. Nota-se aí uma característica observada em qualquer inferno: a eternidade. Mas uma diferença fundamental é a repetição dos acontecimentos. 

Posto isso, revelo ao raro leitor que estou numa situação que me faz cogitar a possibilidade de estar em um inferno repetitivo e eterno. 

Há meses, entrei em contato com uma clínica que me atende regularmente. O objetivo maior das minhas visitas é pegar uma receita amarela. Como as agendas dos médicos desse estabelecimento são lotadas, eu costumo esperar, no mínimo, um mês para ser atendido. Sempre foi assim e, apesar de alguns incômodos, eu acabo conseguindo a receita. Contudo, desta vez a situação mudou um pouco.

Eu havia marcado para o início do mês seguinte quando recebi uma ligação da clínica:

- Doutor Fulano de Tal não vai poder te atender no dia marcado. Podemos marcar outra data?

- É claro! Por favor remarque.

- Tudo bem. A próxima consulta é daqui a 47 dias.

- 47 DIAS!?

- Sim, senhor.

- Mas eu preciso pegar as receitas. O remédio está acabando. 

- …

Dei meu jeito. Tentei economizar a medicação para que durasse tempo suficiente até a próxima consulta, mesmo que houvesse o risco de ficar disfuncional.

Os 47 dias se passaram. Vou à clínica. Minha vez chega e vou à sala do médico. Depois dos cumprimentos “protocolares”, ele me dá a má notícia:

- Infelizmente, a receita amarela acabou ontem.

Desabafei, naturalmente.

- Eu esperei 47 dias para isso? - perguntei. 

O médico levantou as mãos de tal maneira, como se dissesse: “não tenho nada a ver com isso!”.

Conversei com as recepcionistas, perguntei quando a receita amarela chegaria. Disseram-me o dia. Pedi que me encaixassem em algum horário no dia em que a receita estaria disponível. Com muita paciência e conversa, consegui convencê-las.

Na semana seguinte, fui à clínica e peguei a receita.

Então, dias depois, marquei novamente uma consulta. Para o início do mês seguinte. E então veio a temida ligação:

- Infelizmente, por motivos de “força maior”, a doutora Ciclana não vai poder te atender no dia agendado. Podemos remarcá-lo?

- Sim, por favor.

- Sua próxima consulta será daqui a 45 dias!

- Meu Deus do céu!

Mais uma vez, tive que me virar. E quando o tempo passou e o dia da consulta chegou, o leitor já pode imaginar o desfecho.

- Não temos receita amarela - disse a médica.

Mais uma vez, conversa e paciência com as atendentes da recepção. E na semana seguinte, fui à clínica num horário “extra” em que me encaixaram. Consigo pegar a receita.

Dias depois, eu ligo e marco outra consulta, a atendente agenda para o início do mês seguinte…

Bom, o leitor já sacou o que vai ocorrer. Talvez eu tenha tido um destino parecido com o do protagonista de “O Terceiro Tira”. Só não me perguntem o que eu fiz para merecer isso, pois não faço a menor ideia. 

Inspirei-me nesse romance para escrever esta crônica, mas diferentemente de O’Nolan, que mostra o “terceiro tira” - personagem que dá nome ao livro -, vou poupar o leitor do “terceiro médico”, a pessoa que me atenderia pela terceira vez seguida no inferno das clínicas.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Romance policial (III)

O assassinato de um prefeito de uma cidade paulista tem sido objeto de teorias conspiratórias que servem como instrumento de demonização política. Segundo a hipótese que surge desses raciocínios mirabolantes, a vítima foi assassinada não por bandidos que queriam o seu dinheiro, mas por sicários a mando de um líder político.

Tal hipótese já foi verificada pela polícia, que constatou o seguinte: trata-se uma teoria sem fundamento. Ainda assim, nas redes sociais, a teoria vai e vem, e quem a dissemina desconsidera as conclusões da investigação. Ou sequer sabe que as forças da lei já desmentiram essa tese. 

O que interessa nesta crônica é a situação em que a polícia acaba sendo colocada ao ter que considerar hipóteses que não levam a nada. E talvez isso seja bastante comum. Pode-se dizer que investigadores também têm o seu “dia de Blue”. Mas o que seria isso?

Estou recorrendo a um dos meus autores favoritos, Paul Auster. Refiro-me a um personagem dele, Blue, que protagoniza o romance “Fantasmas”, obra que faz parte da brilhante “Trilogia de Nova York”. 

No livro, o personagem principal é contratado por um homem chamado White para vigiar um cara chamado Black. A obra de Auster subverte uma das principais premissas do romance policial. Aquela que diz: “a ação criminosa rompe com a ordem e a normalidade”. Blue observa Black, mas este não faz nada fora do comum. Assim, o cotidiano prossegue inabalado. Pode-se dizer que trata-se de um “antirromance policial” ou um “romance antipolicial”. 

Se resolvêssemos adaptar as teorias conspiratórias - que tentam explicar a tragédia do prefeito paulista - para uma história policial, e colocássemos no enredo alguma dose de realismo, o resultado também seria um antirromance. 

Evidentemente, tal crime implica na existência de supostos assassinos. Então, os investigadores do caso (e protagonistas da história) teriam que seguir, observar e ter extrema atenção com os suspeitos. Isso implicaria os personagens numa situação parecida com a de Blue e Black. 

À espera de comportamentos suspeitos relacionados ao caso, os investigadores sofreriam com o fastio. Talvez os observados demonstrassem alguma conduta esquisita, mas não teria a ver com o que estava sendo investigado. Ou pode ser que mesmo não tendo nada a esconder, os investigados pela morte do prefeito tivessem uma vida mais agitada do que a de Black. 

Por causa da modorrenta rotina de Black e do dia escuro, somados à neve que começou a cair e a atrapalhar a visibilidade, Blue ficou sem nada para fazer. Se “Black não parece mais do que uma sombra”, o que ele teria para espiar? No entanto, isso significava que Blue teria tempo para ler seu jornal e suas revistas favoritas. 

Por outro lado, no nosso antirromance sobre o prefeito assassinado, os protagonistas, que vivem no Brasil, não teriam que lidar com a neve. E Blue e Black vivem na década de 1940. Hoje há mais alternativas para se distrair, graças aos avanços tecnológicos. Portanto, um policial brasileiro pode gostar de revista e jornal, mas ele provavelmente tem um smartphone com redes sociais. Imaginei o seguinte diálogo:

“Olha só essa gracinha”, diz investigador A enquanto mostra a tela do seu celular à colega.

“É uma gata!”, afirma investigadora B. “Deu match?”

Possivelmente, os policiais ficariam tão envolvidos na conversa sobre relacionamento que acabariam esquecendo dos alvos de investigação. Mas não se meteriam em encrencas com seus superiores, pois eles não perderiam nada, afinal não estava acontecendo nada de suspeito.

Seria divertido se isso ficasse apenas na ficção. Caso ocorresse de verdade, seria péssimo. O problema, a meu ver, é o desperdício de recursos públicos. Não faz sentido gastar dinheiro com investigações inúteis.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Romance policial (II)

Contaram-me a história de Gilmar, um trabalhador da construção civil, que começou a ser perturbado pelo telefone celular que tocava na madrugada. Não era telemarketing, que gostava de “encher o saco”, mas não costumava ligar nesse horário para a casa dos outros. Na primeira vez que ele atendeu, a voz do outro lado da linha admitiu que cometeria um crime.

“Vou apagar um cara aí na sua área”, disse a voz. 

“Quem está falando?!”

Desligou.

Seria um trote, o cara ligou para o número errado ou era algum maníaco com a intenção de avisar a pessoas aleatórias que iria matar alguém?

Antes de entender a resposta, um pouco de digressão: o telefonema para Gilmar me lembrou de uma obra-prima da literatura: A Trilogia de Nova York, do grande Paul Auster, que faleceu recentemente. Trata-se de uma abordagem pós-moderna da literatura policial. Composto de três histórias, a ideia central é partir da história detetivesca para chegar em questões mais amplas, como identidade e realidade. 

A primeira da histórias, Cidade de Vidro, começa com o telefone do protagonista “tocando três vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali”. Por outro lado, a voz que falou com Gilmar não procurava ninguém e ainda comunicava algo mais grave: que iria assassinar uma pessoa. 

Apesar das diferenças entre as duas situações, não consegui resistir e imaginei que talvez Gilmar acabasse encarando uma luta semelhante ao do protagonista de Cidade de Vidro. Ou seja, que ele ficasse confuso ao adentrar em questões que põem em xeque a realidade e a identidade dele mesmo. 

No entanto, acho que não precisou de perguntas filosóficas para deixar Gilmar e os ouvintes da história do telefonema com sérias dúvidas. Sobre a pergunta de parágrafos atrás, não há resposta conclusiva. De fato, mataram gente na mesma semana que Gilmar recebeu a ligação. Mas ele mora em um bairro violento de Salvador, onde não é incomum pessoas serem assassinadas. 

Portanto, a pessoa que telefonou pode ser, ou não, um assassino. Pode ser, ou não, alguém que passa trotes. Ele deu poucas informações. Fez uma afirmação genérica. Disse que ia matar alguém, mas não especificou onde, quando ou como seria a vítima. Entretanto, um criminoso não seria tão tolo a ponto de revelar tudo isso. Ele acabaria dando a oportunidade para que a vítima fosse salva. 

Em outra imaginação minha, cogitei que, em comparação com Gilmar, esse suposto assassino estaria mais próximo do personagem principal de Cidade de Vidro. Na história de Paul Auster, o protagonista acaba confundindo ficção e realidade. Ele, um escritor de romances policiais, começa a adotar as características de seu detetive fictício. 

Pergunto-me se a voz que falou com Gilmar por telefone seria de um autor de romances policiais que acabou confundindo-se com um de seus personagens, um assassino que telefona para avisar seus crimes, demonstrando uma autoconfiança absurda. 

E já que estou falando de uma história específica de Paul Auster, é de se perguntar: o metafórico título “Cidade de Vidro” é aplicável a Salvador? O vidro é vulnerável à distorção óptica, o que significa que habitantes de uma “cidade de vidro” podem ser vítimas de uma realidade distorcida. 

O corpo

Compareci a uma universidade para assistir a apresentação de um aluno de mestrado que estava treinando para defender sua dissertação. Na sua pesquisa, ele analisou reportagens televisivas de duas emissoras distintas e concorrentes. Depois de ter assistido trechos dessas duas produções jornalísticas, comecei a refletir comigo mesmo. Uma moça que também estava assistindo o “ensaio” pediu a palavra para fazer comentários e sugestões ao trabalho acadêmico do rapaz. Uma parte da fala dela me incentivou, involuntariamente, a aprofundar a minha reflexão. 

"As reportagens desses canais parecem novelas. Tudo para prender audiência. Tem até trilha sonora", disse a moça. 

Eu concordei, apesar de não ter dito isso para ela e para os demais presentes. Os chamados “programas policialescos” pegam o método visto em folhetins (novelas são folhetins televisivos) e aplicam em reportagens ao vivo para prender a atenção do telespectador e com isso evitar que ele mude de canal. Pode ser também que essas emissoras de TV aprenderam uma das lições do escritor Ian Fleming, o criador de James Bond e autor de vários romances centrados nesse personagem.

Diz Fleming, em seu valioso ensaio “How To Write A Thriller”: “Só existe uma receita de [livro] best-seller e é muito simples. Você tem que fazer o leitor virar a página”. Aplicando esse princípio na televisão, poderíamos ter a seguinte máxima: “Você tem que fazer o leitor ficar longe do controle remoto. No mesmo ensaio, Fleming é sincero: “Escrevo, descaradamente, por prazer e dinheiro”. 

Não há nada de errado nesses conceitos apresentados por Fleming. São até recomendáveis se você quer ganhar algum dinheiro vendendo livros. No entanto, ele referia-se a textos ficcionais. De certa maneira, é possível aplicar também a gêneros não-ficcionais. O problema é que a linguagem da TV é distinta do livro ou do jornal/revista em que o folhetim é publicado. As pessoas reais relacionadas a um crime ou tragédia semelhante têm suas imagens expostas, que servem de matéria-prima para tentar obter audiência. É por isso que a aplicação do “método Folhetim” pode transformar a reportagem televisiva (ao vivo ou não) em algo de caráter sensacionalista.

Em um trechos que nos foi apresentado, o programa televisivo reportava sobre as buscas pelo corpo de um rapaz que havia sido assassinado. O padrão de folhetim foi aplicado, e ficou parecendo que a reportagem estava utilizando do sofrimento alheio para ganhar dinheiro através da audiência. É como se um dos princípios de Fleming, sobre escrever por dinheiro, fosse distorcido pelos produtores, jornalistas e apresentador. Na TV, não havia personagens de ficção. A família do jovem e seus conhecidos eram reais e sofriam. Suas dores eram usadas como munições para prender a atenção de quem assistia. 

E assim como acontece na ficção pulp, há até elemento surpresa. Na produção jornalística em questão, um corpo foi encontrado, mas não era do rapaz desaparecido. Era de outra pessoa, irreconhecível, por causa do estado avançado de decomposição. 

Um verdadeiro horror. 

No trecho que nos foi mostrado, não aparece o desfecho. E não pesquisei para saber. Então, não faço ideia se o corpo do jovem foi encontrado. Apenas sei que a ética jornalística e a empatia estavam mais perdidas que a vítima. 

domingo, 16 de junho de 2024

Romance policial (I)

Em 2005, um homem morreu perto de minha casa. Era dono de um bar, conhecido pelo temperamento forte e por ser um “Dom Casmurro” contemporâneo. Logo todo mundo ficou sabendo que se tratava de suicídio. Havia uma pista que sugeria isso. Ele havia escrito uma frase em que revela o suposto motivo que o levou a tirar a própria vida: o seu clube do coração, um time local que tinha sido rebaixado para a última divisão do futebol nacional.

Algumas pessoas ficaram sabendo, mas não foram convencidas. Diziam que se matar pelo time que torce era “muito pouco”, que havia “algo mais”. Entre esses, alguns especulavam que a razão verdadeira era dinheiro ou mulher.

Houve até mesmo especulações religiosas que tentavam entender para onde foi a alma do pobre homem. Uma mulher mencionou uma teoria que certamente causou horror em evangélicos e católicos, mas que era interessante e original, apesar da “heterodoxia” chocante: o suicida não estaria nem no céu, nem no inferno. Estaria num “espaço vazio e infinito” até Deus decidir o que fazer com a alma dele. Um pastor indignado retrucou.

“Não! Isso está errado. Deus não tem dúvidas. Ele sabe de tudo e por isso sabia o que fazer com a alma daquele homem antes mesmo de acontecer a morte dele”, disse o pastor. “Deus decidiu, apenas não sabemos qual a decisão dele”.

Acho que o assunto durou uma semana e depois caiu no esquecimento.

No entanto, quase dezenove anos depois, a filha do suicida recebeu um telefonema.

“Eu apaguei seu pai.”

A moça começou a soluçar.

“Não brinca com isso, canalha!”

“Não é brincadeira. Eu, Corleone, mandei acabar com ele.”

O suposto assassino estava dizendo que matou o pai dela e fez parecer suicídio. Provável que fosse trote. Mas a brincadeira de mau gosto mexeu com a filha, que resolveu contratar um detetive particular.

O detetive era, diferentemente do suicida, um homem com temperamento moderado. Possuía a mente aberta, gostava das deduções lógicas, do raciocínio geral, da teoria antes do fato. O nome “Corleone” chamou a atenção.

É personagem de um romance intitulado “O Poderoso Chefão”. O engraçadinho gosta de literatura da máfia. A conclusão do investigador foi rápida e contundente:

“É trote. O cara gosta de Mario Puzo”, disse o detetive, enquanto anotava. “Ele usou do personagem para sacanear.”

No entanto, por que a brincadeira envolveu o pai da moça, quando há tanta gente que poderia virar alvo da chalaça? Essa pergunta incomodou o detetive. A sua mente aberta a novas ideias o incentivou a tentar um método incomum.

Em vez de pesquisar suspeitos nos registros policiais, vasculhou o nome “Corleone” em arquivos digitais de ficção na internet. Localizou alguns autores que diziam ser de Salvador, Bahia. Leu cada conto e novela por horas. Até que chegou a uma ficção intrigante. O título: “O falso suicida”. O enredo era assustadoramente idêntico ao que o autor do trote havia dito. Um chefe do tráfico conhecido como “Corleone” ordenara a morte de um homem. A ordem:

“Faça parecer suicídio.”

“Corleone” queria se vingar do homem. E aqui emerge um detalhe que, por motivos óbvios, o sacana do trote não contou. Quando criança, o tal do “Corleone” levava cascudo do cara que ele mandou matar. Ele sentiu tanto ódio que, ao crescer e adquirir poder criminoso, ordenar a morte do homem foi uma das primeiras coisas que fez.

Mas era tudo ficção.

Entretanto, o que importava era o autor da história, que usava um pseudônimo. Ao conversar com parentes do suicida, ele conseguiu descobrir a criança que ficou vingativa ao virar homem. Informou à filha que recebeu o trote.

“Ele é um pobre coitado”, ela disse.

O cara não era chefe do crime. Aquela ficção que escreveu era apenas uma idealização, um desejo oculto dele.

“Corleone” (o autor, não o personagem) apenas externou seu ódio na forma de uma ficção policial - uma ficção ruim, aliás. Assim como há rappers que manifestam a raiva em versos diretos e com linguagem forte. Trata-se de um modo legítimo de colocar a frustração para fora. O único erro de “Corleone” foi passar um trote, brincar com a dor de uma pessoa.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Acusação injusta na televisão

Era noite, meu vizinho começou a receber sucessivas mensagens em seu Whatsapp. Ao lê-las, foi tomado pelo susto. Soube que seu rosto apareceu em um telejornal. Uma emissora colocou a sua foto e o rotulou como “acusado de estupro”. Graças a isso, uma situação kafkiana acabava de irromper na sua rotina tranquila. A acusação era absurda; do seu ponto de vista, e de seus amigos, ela escapava a qualquer lógica ou racionalidade. 

O medo veio junto com a perplexidade, pois todo mundo sabe como há “justiceiros” por todo canto, sequiosos para praticar linchamento contra “bandidos”. A sociedade odeia estupradores - esse tipo de crime não é tolerado nem entre bandidos, como traficantes e ladrões. Sua face na TV junto com a acusação de um crime grave poderia acabar decretando a sentença da sua morte. Seria como se a emissora colocasse um alvo na sua testa.

Amigos e conhecidos começaram se mobilizar para salvar sua vida. Fiéis de uma igreja que ele frequenta vieram ajudá-lo. Retiraram ele da sua casa e o colocaram num local seguro e desconhecido. Ficar em casa poderia lhe trazer problemas. Pessoas que moravam próximo poderiam reconhecê-lo: 

- Já vi esse homem aqui no bairro! - alguém poderia dizer.

- Ele mora na rua de cima! - outro poderia afirmar. 

Uma turba enfurecida poderia surgir a qualquer momento para trucidar o “estuprador”. Ficar em casa significaria estar à espera dos carrascos. Era melhor sumir. 

Fiquei sabendo do calvário do meu vizinho. Várias vezes olhei a casa dele pela minha janela, sempre temendo que se formasse uma multidão em frente a ela. Mesmo que ele não estivesse em casa, os sedentos por sangue - que usam da “justiça” como pretexto para praticar a barbárie - ficariam contentes com a destruição da moradia dele. 

Ainda bem que não aconteceu nada. Meu vizinho, no entanto, continuava aflito. 

No outro dia, ele teve que aparecer na televisão para esclarecer que não era estuprador. No telejornal da hora do almoço, em outra emissora, ele deu entrevista ao lado de seu advogado.

- Sou trabalhador, tenho família, nunca cometi nenhum crime bárbaro…

Ele estava abatido, cansado, ainda tomado pelo medo e pelo choque. A entrevista ocorreu em frente a uma delegacia da Polícia Civil, onde ele esteve, por vontade própria, antes de falar para a televisão. Àquela altura, um fato fundamental estava patente: o verdadeiro acusado por estupro já havia sido preso desde antes da foto do vizinho aparecer na transmissão local. 

O jornal da TV, para quem ele falou, colocou a foto desse suspeito: é calvo e usa óculos. Assim como o meu vizinho. A confusão foi a origem de todo o mal. Mas como a foto de um inocente foi parar nas mãos da produção do canal de TV? E em um contexto tenebroso como esse? 

É um mistério.

À noite, uma entrevista gravada, que ele deu à mesma TV que o acusou, foi ao ar. Era uma forma de o telejornal se retratar.

- Passei a noite em claro. - disse o meu vizinho. 

Quem poderia dormir sabendo que não poderia sair à rua, pois havia o risco de ser morto por algum bandido que acreditaria estar fazendo “justiça”?

O apresentador pediu desculpas ao meu vizinho. Todavia, parece que ele não vai aceitá-las. Mais cedo ele veio aqui em casa para pedir ferramentas. Perguntei como ele estava e o que pretendia fazer.

- Vou processar a emissora. - ele disse.

- Justo.  - afirmei.

- Vai vir uma bolada. Eles quase arruinaram minha vida.

Mesmo depois da retratação, ainda me preocupo. Será que a admissão do erro consegue atingir uma plena reparação? O jornalista Felipe Pena já escreveu que “no jornalismo [ou suposto jornalismo], não há fibrose. O tecido atingido pela calúnia não se regenera”. Não seria absurdo continuar temendo pela segurança do meu vizinho. Por aí, ainda há pessoas que viram a acusação, mas não viram a emissora se retratar. 

domingo, 28 de abril de 2024

Stalkers

Terminei de assistir a estarrecedora minissérie de sete episódios, na Netflix, intitulada “Bebê Rena”. Baseada em fatos reais, conta a história de Donny Dunn (interpretado pelo ator Richard Gadd, também criador do programa), um comediante fracassado que passa a ser implacavelmente perseguido pela ex-advogada Martha Scott.

Difícil não se comover com Donny. O cara só se ferra na série. Ele já havia sido vítima de estupro e abuso sexual em eventos ocorridos antes dos acontecimentos envolvendo Martha. Como a minissérie é autobiográfica, meu sentimento de comiseração foi ainda maior. 

Aterrador foi assistir que a desgraça, que veio como uma avalanche na vida de Donny, foi desencadeada por um simples ato de gentileza. O comediante dá uma xícara de chá “por conta da casa” para Martha, quando ela aparece pela primeira vez no pub onde ele trabalhava, em Londres, no ano de 2015.

A partir disso, Martha aparece regularmente no estabelecimento e começa a flertar abertamente através do uso de apelidos “carinhosos”, como “Bebê Rena” (o que explica o nome da série), entre outras coisas. A situação só piora daí em diante. Mas não vou entrar mais detalhes. Chega de spoiler.

O que me deixou intrigado e perplexo, repito, foi como o ato gentil serviu de gatilho para o desastre. Isso mostra como pode ser perigoso praticar gentileza com desconhecidos. Não se trata aqui de defender a tese esdrúxula de que temos que absolutamente evitar sermos gentis para “prevenir”. 

Até porque o stalker (adjetivo que caracteriza perseguidores obcecados por outra pessoa), muitas vezes, não precisa de uma “abertura” gentil de seu alvo, para emplacar sua perseguição obstinada e nociva.

Nunca fui vítima de stalker. Porém, escutei histórias escabrosas que corroboram a tese exposta no parágrafo anterior.

Por exemplo, na faculdade de Jornalismo onde estudei, na graduação, uma amiga me contou que um colega de sala estava perseguido uma jovem da mesma turma. 

- Ele me mandou um áudio em que ele chora e diz coisas com raiva. - ela me disse. 

- Porque ela rejeitou ele? - perguntei.

- Sim. - ela me respondeu.

Ela me fez escutar o áudio. O que ouvi foi um misto de tristeza e ódio expressos por um rapaz aflito. Entre os lamentos, ele demostrava raiva porque a mulher teria dito a ele que tinha namorado, quando na verdade não tinha. No entanto,  o que ele disse, logo após xingá-la das coisas mais repugnantes possíveis, me deixou em alerta: “ela não tem namorado p… nenhuma! Eu investiguei ela por cinco meses! Cinco meses!”.

O rapaz começou sendo um stalker online. Durante cinco meses vasculhou as redes sociais da mulher por quem ele estava apaixonado. Ao concluir que ela supostamente não tinha namorado, tentou se aproximar dela, foi rejeitado e então se tornou um stalker ainda pior e passou a persegui-la na faculdade. 

Não sei exatamente qual foi o desfecho da história. Posteriormente, eu comecei a conversar com a vítima da perseguição, mas nunca quis questioná-la a respeito desse triste evento em sua vida. Porém, como ela parecia muito bem e feliz, como ninguém comentou mais nada e como o rapaz parecia ter “voltado ao normal”, pude concluir que tudo acabou bem.

Entretanto, foi um evento assustador até para quem estava de fora, como eu. O medo da tragédia provém da imprevisibilidade da situação. Como vimos em “Bebê Rena”, Martha Scott se tornava mais perigosa e violenta à medida que se tornava mais imprevísivel. Portanto, não se sabe como a situação acabaria se o rapaz ficasse mais instável.

Mas não vamos cair na demonização rasa. Fiquei comovido com o protagonista de Bebê Rena. Todavia, foi difícil não sentir um pouco de empatia com Martha. Ela era advogada, o que significa que em algum momento da sua vida ela era mentalmente estável a ponto de possuir alta educação. Algum evento (ou eventos, no plural) provocou-lhe um colapso mental. O que seria? 

Assim como senti empatia pelo meu colega na faculdade. Não faço ideia de quais fatores estariam por trás de sua transformação em um stalker, apenas sei que esses fatores existem.

De qualquer maneira, o mundo está perigoso até para quem oferece um chá gratuito ou para quem rejeita um pretendente amoroso.

sábado, 27 de abril de 2024

O colo do capeta

Segundo o noticiário, um homem assassinou um casal de seguranças em uma loja de conveniência no Paraná. Em áudios enviados pelo Whatsapp, ele diz que “mandou os dois para o inferno” e que as vítimas agora estão no “colo do capeta”. 

O “colo do capeta” não é meramente o colo do capeta, também seria um lugar metafísico; em tese, estaria localizado nas profundezas do inferno. Não há uma regra objetiva que determine quais os critérios podem levar alguém até lá. É conclusão fundamentada na subjetividade. Se você tem um inimigo e ele morre ou é assassinado, você pode concluir que ele está no colo do diabo. Na guerra da Ucrânia, soldados vão para o colo do capeta diariamente. 

No entanto, muitas vezes, nem precisa ser seu inimigo. Basta você detestar a pessoa e ela, se falecer, vai ter esse destino cruel. De acordo com um velho manuscrito beneditino (peguei isso do mestre Machado de Assis), o Diabo procurou Deus para reclamar que muita gente, todos os dias, estava caindo em seu colo. 

- O que queres, capeta?

- Preciso de um colo maior.

- Quê?

- Todo dia cai gente no meu colo. Preciso que você expanda meu colo. Logo não vai ter mais espaço.

Dizem os exegetas que Deus recusou o pedido, a princípio. Mas o capeta o perturbou tanto que Ele acabou cedendo. Teólogos debatem como foi que o Diabo teve êxito nisso. Os mais ortodoxos afirmam que o Diabo inventou a empresa de telemarketing, que começou a ligar para o celular de Deus o dia inteiro. Como um dia para o Criador equivale a mil anos, o raro leitor pode imaginar o quão isso foi estressante…

Os teólogos heterodoxos dizem que o Diabo infestou as ruas celestiais com entregadores de folhetos com anúncios. Deus não conseguia andar alguns centímetros sem ter que pegar um folheto e acabou chegando com milhares deles em casa.

- Isso aqui está pior do que Salvador! - teria dito o Senhor. 

De qualquer modo, o Diabo conseguiu convencê-lo. Na verdade, conseguiu até mais do que queria. Deus fez com que seu colo se tornasse infinito. Agora cabe todo mundo. Tornou-se um espaço metafísico autônomo. É um local pós-morte tão possível quanto o céu ou o inferno. É por isso que o assassino erra quando coloca “colo do capeta” e “inferno” como se fossem sinônimos. Não são.

Mas como seria exatamente esse local?

Não há evidências de que alguém tenha ido e voltado do colo do capeta. Nas igrejas, no entanto, proliferam testemunhos -  gênero ficcional criado pelo neopentecostalismo - em que convertidos contam que foram até lá e voltaram. 

Um deles diz que o colo do capeta se assemelha a uma rua onde o lixo doméstico ocupa toda a calçada, que é estreita. Depois de ele ter dito isso, um fiel levantou a mão e pediu a palavra para fazer uma observação:

- Curioso. Essa rua que você descreve é idêntica à do bairro onde moro, Cosme de Farias!

Coincidência? Ou será que o colo do capeta contratou o mesmo urbanista de Salvador?

Outro testemunho disse que no colo do capeta só se fala de Taylor Swift nos jornais. Nesse caso, eu questiono: o que o colo do capeta oferece de novo? Ora, a taylormania também acontece por aqui. Nesse caso, o clichê é verdadeiro: “o inferno é aqui”. Ou melhor dizendo: o colo do capeta é aqui.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Visita Surpresa

Certo dia, um vizinho veio me contar que um amigo dele havia morrido. Isso causou um choque em mim e em outros amigos em comum. Todo mundo vai morrer, isso a gente sabe. No entanto, está subentendido na sociedade que há idades “apropriadas” para se morrer; ademais, não espera-se que uma pessoa que estava malhando no dia anterior (!) morra de forma repentina. O horror provém dessas crenças. O homem que morreu era jovem e esbanjava uma suposta saúde. 

Ele estava tomando café numa lanchonete. Os outros clientes só ouviram o barulho da queda. O cara morreu “do nada”. Caiu da cadeira, chegou ao chão já morto. Nem adiantaria chamar a ambulância. O acontecimento levou a reflexões sobre a fragilidade da vida.

- O cara estava bom ontem! Como ele pode ter morrido? - comentei isso com meu pai.

- A vida é assim! - respondeu meu pai. - Você está bom numa hora e de repente…

A situação é pior em bairros violentos e com infraestrutura de baixa qualidade. Suspeito que as “mortes repentinas” sejam mais prováveis em regiões mais pobres. Em locais assim, a causa mortis não vem somente de um vírus, de um ataque cardíaco (que matou o amigo do meu vizinho), de um derrame ou coisa parecida. A pessoa pode ser vítima da barbárie. Exemplos não faltam.

Lembro que eu e meus amigos assistíamos (involuntariamente) um rapaz agredir sua namorada enquanto ambos subiam as escadarias da rua onde morávamos. Era perturbador. Ele não apenas batia como também a agredia verbalmente. Esse “espetáculo” da desgraça alheia (olhares surgiam das janelas) ocorria toda sexta-feira. Como se sabe, é o dia do “sextou”, o que implica em bebedeira e consequente violência. 

Até que chegou uma sexta-feira e não vimos o casal.

Mais outra sexta. E nada.

Mais outra…

Não vimos mais. Depois nos contaram que esse cara foi assassinado. 

- No dia anterior, ele havia ido à igreja e tinha aceitado Jesus. - me contou uma senhora. - Ele estava tão bem e feliz! No outro dia, mataram ele.

Eu e meus amigos ficamos especulando e suspeitávamos da namorada vítima de violência doméstica.

Outro exemplo: um rapaz correu atrás de outro com a intenção de agredi-lo. O alvo foi mais rápido e conseguiu escapar subindo uma das escadarias do bairro. O evento atraiu olhares, o que irritou o agressor em potencial.

- Vocês deveriam ir lavar uma roupa em vez de ficar vendo a vida dos outros! - ele disse.

No outro dia, ele foi assassinado em frente a uma farmácia.

Eu eu meus amigos, de novo, ficamos especulando.

- Tenho certeza que aquela velha ficou furiosa por ter sido acusada de “ver a vida dos outros”. Acho que foi ela quem mandou matar! - me disse um amigo.

Tempos depois, o alvo da agressão também foi assassinado!

Especulações e teorias à parte, me espanta como a vida pode ser frágil como um ovo. Todos os três mortos citados nesta crônica eram jovens. Em “Na Hora do Almoço”, Belchior alerta: “Deixemos de coisas, cuidemos da vida/Senão chega a morte ou coisa parecida/E nos arrasta moço sem ter visto a vida”. No Brasil, todos os dias a morte arrasta pessoas jovens.

E também me espanta o fato de não haver muita gente se desesperando por saber que a vida pode acabar a qualquer momento. Os psicólogos chamam isso de “Tolerância à Incerteza”. Parece-me que vivemos como se fôssemos imortais. 

terça-feira, 2 de abril de 2024

O Lapso

Se fosse possível, logo após a aula do Mestrado, eu iria correndo para o consultório do Dr. Jeremias Halma. 

“Quem?”, deve estar se perguntando o raro leitor. Ou pode ser que não. Há um grupo restrito que pode conhecê-lo. Mas antes de informar os desavisados, melhor contar a razão do meu desejo de ir me consultar com esse médico.

No intervalo da mesma aula, uma colega se aproximou de mim. Comentou sobre o que tínhamos acabado de ver. Mudei de assunto meio sem querer.

- Sabe que a aula de quinta-feira vai ser em outra sala, né?

- Sei. 

- Você não veio na quinta passada, então pensei que pudesse estar por fora.

- O professor fez chamada?

- Fez.

- E você está aprendendo o assunto da aula dele?

Em tese, sim, eu estou aprendendo. Todos os dias eu leio sobre esse assunto. Há muitas coisas que aprendi.  Todavia, a colega me pegou desprevenido mesmo assim. Me pediu a definição do termo que dá nome ao assunto em questão.

- É… tipo… é uma corrente filosófica que… explica a….- respondi. Ou melhor, tentei responder.

Em outras palavras, me enrolei ridiculamente. Um assunto que eu pensei que estava dominando. Veio a colega e destroçou minhas ilusões com uma pergunta básica. 

Durante a aula, fiquei refletindo sobre o assunto. E acabei elaborando, para mim mesmo, uma definição correta para o termo que ela me questionou. Eu só precisava refletir um pouco para dar uma boa resposta, mas por que isso não aconteceu na hora?

Penso que tive um lapso no momento em que tentava explicar para a colega. Foi essa conclusão que me levou a lembrar do Dr. Jeremias Halma.

O médico é uma criação do grande escritor Machado de Assis. Ele aparece no conto intitulado “O Lapso”, publicado no livro “Histórias sem Data” (1884). Uma breve sinopse: um homem chamado Tomé Gonçalves - que era “exato em todas as coisas, pontual nas obrigações, severo e até meticuloso” - havia perdido a “noção de pagar”, segundo o diagnóstico do Dr. Jeremias, o que implicava em calotes. Mas o paciente não fazia isso de propósito. “Esta ideia de pagar, de entregar o preço de uma coisa, varreu-se-lhe da cabeça”. 

Em comparação, é possível que o meu suposto lapso seja distinto. Talvez o conceito de qualquer assunto seja varrido da minha cabeça bem na hora que eu precise explicar a alguém. Se for isso, estou ferrado. A carreira acadêmica exige apresentação de seminários e a capacidade de explicar assuntos de forma lógica e coerente. 

- A moléstia não é incurável. - me diria o Dr. Jeremias, como disse aos credores de Gonçalves. 

Ele, segundo a ficção machadiana, já havia curado um barbeiro, “que perdera a noção de espaço”, e uma “senhora na Catalunha”, “que perdera a noção do marido”.  O próximo paciente deveria ser eu, que perco a noção de qualquer assunto quando estou prestes a dissertar sobre ele para qualquer pessoa. 

- A cura está na própria faculdade. - me explicaria o Dr. Jeremias.

Ele curou Tomé Gonçalves depois de levá-lo para assistir a compra e venda de mercadorias e para ver a ação de pagar, entre outras coisas. A minha cura seria assistir com mais frequência outros alunos explicando sobre qualquer tema. 

Na quinta-feira, a colega não apareceu para a aula de novo. Quando a questionei, ela disse que tinha perdido a noção de sala de aula. 

sexta-feira, 1 de março de 2024

Trevisan no supermercado

Sexta-feira. Vou a um supermercado que fica em Brotas. Criei um hábito. Toda semana vou nesse estabelecimento para comprar alguma coisa: normalmente é uma garrafa de refrigerante ou macarrão instantâneo. Mas hoje vou prestar mais atenção em outras seções. É um mercado que fica um pouco distante de casa. Há outros mais próximos. No entanto, eu vou até lá só para poder fazer exercício físico no caminho. Andar é bom.
Depois de caminhar 1,3 km, chego no supermercado. No estacionamento, um carro para e duas pessoas saem: um homem e uma mulher. O homem é gordo, imenso, possui um traço imponente e é calvo. Lembra o Tony Soprano. A mulher parece ser esposa. Linda e aparentemente mais jovem que ele. Ambos entraram logo depois de mim.
O casal parou para conversar com alguém e eu fui para a seção de higiene, que fica próxima à entrada/saída do estabelecimento. Enquanto me distraía escolhendo cuidadosamente a marca do papel higiênico, uma muvuca teve início. Não era uma briga feia. Longe disso. Era um bate-boca entre o homem que parece Tony e o segurança. Não consegui entender o motivo da briga. 
- Você viu se fui eu? VOCÊ VIU? - perguntou o homem, aumentando o tom de voz.
- Se acontecer de novo, vou ter que pedir para você se retirar. - respondeu o segurança.
- Ah, é?
- Eduardo… Amor… - disse a esposa, tentando tirar o marido da discussão. Ela foi bem-sucedida nisso.
Porém, escutei o homem dizer baixinho: “ele vai ver”.
Depois de passar o olho nas prateleiras com material de limpeza, vou à parte que interessa: a seção onde fica bebidas. Olho para garrafas de vinho, de rum, de saquê, de cachaça… Dá vontade de comprar tudo. Mas não compro. Levo só o refrigerante.
Vou para a fila. Há cinco caixas. Duas são reservadas aos clientes preferenciais. E elas podem ficar, mesmo que por um momento, sem nenhum cliente. Todavia, há espertinhos (não são "preferenciais") que sempre conseguem usá-las. São os “talentosos”. Andar pelo supermercado é uma arte. Requer a combinação de cuidado, velocidade e malícia. Requer a capacidade de perceber qual caixa está mais rápido. Escolho uma fila. Depois de 10 minutos sem essa mesma fila andar, percebo que não sou capaz de notar qual atendente é a mais veloz.
Atrás de mim estão uma senhora e uma moça mais nova. Conversam e mudam de assunto rapidamente. Com a lentidão da fila, não é exagero dizer que elas poderiam falar de centenas de assuntos ali mesmo. 
Foi então que deram início a uma conversa estarrecedora. Antes que o raro leitor me acuse de "escutar o papo alheio", me defendo: do jeito que elas conversavam, impossível não ouvir. E se quisessem privacidade para um tema tão sensível, não estariam falando disso numa fila de mercado.
A senhora contou que, no interior da Bahia, um homem espancou a esposa na primeira noite que passaram juntos. O motivo: “não era moça”, segundo as palavras de quem contava o relato. Depois disso, o agressor teria entrado em depressão e estava cada vez mais violento. Até que um dia ele torturou física e psicologicamente a mulher, para que contasse quem foi o homem que a deixou “impura”. Ela contou que foi um cara que vivia frequentando um específico bar na cidade. O marido foi ao bar e esfaqueou o cara. Na região, comentava-se que talvez a vítima fosse inocente. A mulher teria dado “qualquer nome” ao marido para que ele parasse de machucá-la.
Não ouvi o resto da história. Entretanto, isso me deixou reflexivo. Parece até enredo de um conto de Dalton Trevisan. Um dos motivos que tornam Trevisan um clássico da literatura nacional é a sua capacidade de descrever fidedignamente como eram os valores da sociedade brasileira há uns 60 anos. Quem lê o autor curitibano passa a entender como eram as entranhas de relações conjugais daquele tempo. Há situações que hoje consideraríamos bárbaras, mas que eram "toleráveis" naquela época. Percebe-se também que os direitos das mulheres avançaram bastante. Mesmo assim, ainda existem "buracos da História", em que acontecem coisas como o evento ambientado no interior baiano. Durante a minha reflexão, a fila andava e estava chegando minha vez.
Vou ser atendido. No outro caixa, vejo o homem parecido com Tony Soprano e sua esposa. Ele chegou nas filas depois de mim e está sendo atendido ao mesmo tempo que eu. Ou seja, ele domina a arte de andar pelo supermercado. 
Na hora do pagamento, ele tira um bolo de dinheiro do bolso e paga. Enquanto contava o dinheiro, comecei a cogitar sobre a possibilidade de ele ser realmente um gângster. O crime organizado curte dinheiro vivo. Ou talvez ele só fosse um homem honesto que se exaltou por um momento. E pagar comprinhas no mercado com dinheiro vivo não prova que alguém é criminoso.
Duas semanas depois, soube que o segurança, que discutiu com o homem, foi encontrado morto. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

A era do carro elétrico

É cedo para dizer que o Brasil já está na era do carro elétrico? Acredito que sim. Mencionei “a era” mais como uma homenagem. Há quase 123 anos, João do Rio decretou: “E, subitamente, é a era do Automóvel”. Ele descreveu a máquina automotiva como um “monstro” que bufa. Pois são os “peidos” dos automóveis que ajudam a degradar o ambiente. O uso do carro elétrico seria mais sustentável. O carro elétrico não peida. É um avanço.

Mas com o carro elétrico emergem adaptações necessárias. João do Rio disse também que o automóvel “tudo transformou com aparências novas e novas aspirações”. O mesmo pode ser dito, mais de cem anos depois, do carro elétrico. Leio no jornal Valor Econômico que o “Carro elétrico agita reunião no condomínio”. É a manchete ipsis litteris. O carro não peida, mas exige carregamento pela tomada. Imagine um sujeito morando em um determinado condomínio. Ele compra um carro elétrico, percebe que a bateria está acabando, pega a tomada do veículo e observa que não há entrada adequada para carregar o carro. Ele vai furioso atrás do síndico.

- O condomínio de vocês não tem entrada para eu carregar meu carro.

- Sinto muito, isso aqui foi construído antes do carro elétrico começar a existir.

- Olha eu pago essa p… Então trate de dar um jeito.

- Senhor, se acalme para que possamos pensar numa solução…

- Eu quero carregar agora! 

O morador furioso precisaria de uma tomada de 220 volts aterrada. Ele tem um carregador portátil que veio junto com o carro. Porém, serão necessárias umas 12 horas para carregar a bateria. Se quiser sair com o carro no outro dia, ele precisa da tomada e do tempo.

- Eu vou trabalhar amanhã cedo! 

- O que posso fazer?!

O síndico precisaria adaptar a garagem do prédio, mas isso não é algo que se faça da noite para o dia. Ele precisaria de consultoria antes. Portanto, ele não poderia mesmo fazer nada naquele momento.

O morador o pega pelo colarinho. Mas o raro leitor fique tranquilo. O diálogo e a ação do morador são frutos da minha imaginação. Entretanto, descrevem algo que pode se tornar mais comum na medida que carros elétricos vão sendo adquiridos e se tornando mais frequentes no Brasil. Segundo a reportagem do Valor, houve discussão que foi parar na polícia.  

João do Rio disse que o automóvel de sua época foi “o grande transformador de formas lentas”. Atualmente, as novas necessidades que vão surgindo graças ao carro elétrico implicam no surgimento de novos serviços. O jornal mencionou a existência de uma empresa que se especializou em diagnósticos para a adaptação de edifícios ao carregamento de carros elétricos. É possível que eventualmente apareçam empresas de arbitragem especializadas em buscar consensos entre moradores a respeito da configuração elétrica do condomínio. Não vamos querer que o síndico apanhe ou que os moradores quebrem o pau entre si. Também não é bom ficar incomodando a polícia com discussões sobre tomada. 

É verdade que alguns moradores tentarão encontrar suas próprias soluções. Há aqueles que vão treinar artes marciais. Prevejo que junto com o crescimento do uso de carros elétricos haverá o aumento de números de alunos nas aulas de defesa pessoal. No formulário de inscrição, se houver, para as aulas de luta terá a seguinte opção na pergunta sobre os motivos para a matrícula: "você e/ou seu vizinho possuem carro elétrico". 

João do Rio percebeu outra coisa na sua época: o automóvel impacta até a linguagem. "A reforma começa, antes de andar, na linguagem e na ortografia". Ele fala sobre diálogos "bizarros" em que as pessoas citavam siglas e palavras em inglês. Com o carro elétrico, as conversas de hoje fatalmente terão suas siglas.

- Qual o seu carro?

- Volkswagen ID. 2ALL.

- É muito bonito! Só que eu quero um BYD Dolphin.

Mas voltemos à questão da engenharia civil. Não são apenas os edifícios com apartamentos que precisarão se adaptar aos carros elétricos. Shopping centers, como diz a reportagem do Valor, já estão cogitando instalar eletropontos com o intuito de atender clientes que possuem carros elétricos. É possível que ao longo dos anos o carro elétrico se torne universal nas pistas do Brasil - ou seja, que ele acabe se tornando “o ideal de toda a gente”, nas palavras de João do Rio. Isso quer dizer que toda a cidade vai precisar se adequar. Principalmente a vizinhança em condomínios. 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Dia do Comediante

Tive, e talvez ainda tenha, vocação para a comédia. E desde a infância. Em suas palavras (escritas) de despedida, minha professora da quarta série percebeu que se tornar comediante poderia ser um caminho para mim. Não foi em tom de zombaria. O que ela disse, ipsis litteris: “você […] tem a capacidade de alegrar todos à sua volta com suas histórias e suas trapalhadas”. Eu fui uma criança impulsiva, o que me levou a ser o “palhaço da turma”. Com a maturidade da vida, notei que ser comediante era mais do que palhaçadas improvisadas na sala de aula. 

Dá muito trabalho ser um bom comediante. A comédia é uma arte performática. Além disso, não há comédia sem público. Se você cria uma piada e conta ela num local onde não há absolutamente ninguém, isso não é comédia. Precisa ter gente rindo. Ou te xingando por causa da piada ruim. Então, para ser comediante, você tem que saber falar em público. 

Mas o mais complicado é criar piadas engraçadas. O comediante possui um texto. Mais difícil ainda é criar boas piadas com o improviso. Isso exige raciocínio rápido por parte do piadista. Uma boa capacidade de relacionar coisas aparentemente sem nenhuma ligação também ajuda bastante.

Para escrever bons textos e produzir boas performances é preciso estudar.

O fato é que não sou chegado a falar em público. Não se trata de medo. Eu sou do tipo recluso, como meus mestres literários Rubem Fonseca e Thomas Pynchon. Portanto, não sirvo para contar piadas diante de uma plateia. Posso até fazer piadinhas com amigos, mas se a roda de conversa enche, eu me contenho. 

O que eu gostaria era de escrever piadas que as pessoas pudessem ler e rir em suas casas. Há definições que distinguem o comediante do humorista. O primeiro, como eu disse, trata-se de uma pessoa que faz apresentação cômica. O segundo seria mais uma atividade intelectual. O humorista escreve artigos de humor, peças de comédia, anedotas etc. Pode se dizer que a comédia está mais próxima do teatro e o humorismo se aproxima da escrita jornalística.

Entre humorista e comediante, eu prefiro o primeiro. Desculpa, querida professora.

Outra coisa que me desestimulou para a carreira da comédia é a possibilidade de ser hostilizado pelo público. Se você conta piadas sem graça, na melhor das hipóteses a plateia te vaia ou te xinga. Na pior, você pode ser agredido fisicamente.

Há uma anedota sobre um comediante fracassado que era, vejam só, alvo de piadas. Imagina o piadista ser tão ruim que ele acaba se tornando vítima de chalaças produzidas por pessoas sem graça. 

No Bar de Comédia onde ele trabalhava, aconteciam frequentes altercações provocadas por gente que estava farta de comédia de péssima qualidade. A cada dia o público diminuía. Numa noite, depois ter contado uma piada politicamente incorreta que envolvia negros e esgoto, uma pessoa da plateia, visivelmente embriagada, foi direto ao ponto:

- Todo dia é essa merda!

- Quem sabe a p… da sua mãe sobe aqui e faz melhor! - retrucou o comediante.

- P… é a sua mãe, seu racista!

A troca de palavras gentis e elogiosas entre os dois descambou para um nível de violência que ninguém tinha visto por ali até então.

Tudo isso mostra que até na vida de comediante pode haver riscos. Talvez seja uma das profissões mais perigosas do mundo. Um público irritado com uma comédia de baixa qualidade pode se tornar agressivo.

Por outro lado, se o humorista produzir texto ruins, o que pode acontecer é o recebimento de “cartas do leitor” manifestando um tom crítico e feroz. O humorista não corre tantos riscos de sofrer agressão física. A não ser que ele irrite algum leitor sociopata, que pode querer ir à casa dele para fazer alguma besteira.

No entanto, nem tudo é ruim. O humorismo e a comédia ajudam a ter uma postura estoica diante das incertezas do mundo. 

O Isentão

Estava na entrada do cinema, com minha então namorada, quando notei que dois rapazes estavam discutindo política e havia um terceiro com eles que não dizia nada. Em determinado momento, o rapaz quieto foi questionado pelos outros dois. Não ouvi bem qual foi a pergunta. Mas a resposta não agradou nenhum dos dois. Ou seja, os dois adversários na discussão concordavam numa coisa.

- Isentão! - disse um deles ao terceiro rapaz.

Numa democracia polarizada, militantes que são adversários entre si podem acabar se unindo para fustigar o “isentão”, aquele eleitor que não se identifica com as duas maiores forças políticas de um determinado país. 

O adjetivo “isentão” é irônico. E é isso que o torna o maior paradoxo do nosso tempo. Explico: além de não ser isento, o “isentão” consegue a proeza de estar nos dois lados da polarização ao mesmo tempo. Já que o “isentão” não seria neutro, apenas fingiria ser, ele só pode estar do lado do inimigo.

Isso é comum na internet. Por exemplo, o “isentão” nas redes sociais consegue ser acusado de comunismo e de ser agente do imperialismo americano simultaneamente. Assim como o jornalismo profissional se torna um dos alvos preferenciais dos caçadores de “isentões”. O jornalista precisa manter equidistância dos agentes políticos. É um princípio ético básico. Porém, isso é mais do que o suficiente para que seja atacado pelos sectários. Os jornais da “grande imprensa” se disfarçariam de “isentões” para ocultar suas preferências políticas: a Folha de S. Paulo seria a “Foice de S. Paulo” ou um jornal a serviço do neoliberalismo; o Estadão é “Esquerdão” ou “porta-voz do golpismo de direita”, entre outros exemplos. As publicações verdadeiramente “imparciais” e “isentas” seriam os panfletos que confirmam as convicções das claques.

Outro dia, propus a um amigo que criássemos o “Calendário do Isentão”. Ele achou que fosse piada.

- Essa foi boa. - ele disse.

- Não, eu estou falando sério. - respondi.

- Sério? Calendário do Isentão?

- Sim. Quando eu não falei sério?

- Várias vezes. Às vezes, não sei se você brinca ou fala sério.

- Desta vez é sério.

Sugeri que deixássemos claro nas redes sociais quais os dias em que determinado rótulo é adequado. Por exemplo: “me chame de comunista só nas segundas-feiras; nas terças, eu sou capacho do imperialismo americano etc.”

- Viu? Você nunca fala sério. - disse meu amigo.

Brincadeiras à parte, há algo de tenebroso em tudo isso. Acredito que as tiranias odeiam mais os “isentões” do que os seus inimigos declarados. Na escala do ódio ditatorial, o isentão só não é mais detestado que os apóstatas. Há mentes que não acreditam na existência de pessoas independentes. Para elas, a seguinte frase é quase uma lei da natureza: “quem está em cima do muro sempre cai do outro lado”. Ou seja, o “isentão” é sempre do mal. Mas seria um mal ainda pior, pois seria um inimigo, um ser traiçoeiro sob um disfarce.

Agora me deixe terminar o relato do cinema. Percebi que o terceiro rapaz, que seria um “isentão”, foi praticamente deixado no vácuo pelos outros dois que ainda discutiam obstinadamente. Depois, parei de prestar atenção, pois estava decidindo com minha namorada qual dos dois filmes que sobraram (descartamos os demais que estavam em cartaz) iríamos assistir. 

- Nenhum dos dois. Vamos para a praça de alimentação.

- Isentão. - ela disse, em tom de brincadeira.

Quer dizer, eu espero que tenha sido mesmo de brincadeira!

Armado no banheiro

Estava na praça de alimentação de um modesto shopping localizado em Lauro de Freitas, quando escutei a conversa sobre três rapazes que encon...