domingo, 28 de julho de 2024

Um bom disco de jazz japonês que foi ignorado pela imprensa

Estava escutando um disco de jazz no Spotify. Quando o álbum encerrou, veio uma sequência de variadas músicas que estão relacionadas ao que acabei de ouvir. A canção, que imediatamente iniciou após o fim do disco, começa com uma combinação instrumental somada a um outro som, que se assemelha a palmas sendo batidas. É como se fosse anunciado o início de um épico.

Refiro-me à música “Walk Tall”, a terceira faixa do disco de jazz japonês “Cat” (1976), do trombonista Hiroshi Suzuki. O álbum possui cinco faixas, mas essa me arrebatou, o que me fez escutá-la várias vezes. Contudo, as outras músicas do álbum também são boas, tornando-o uma produção musical de qualidade que, segundo algumas informações, foi ignorada à época pelas prestigiadas revistas de jazz, tanto as do Japão quanto as ocidentais. Em artigo publicado num site alemão de música, em junho de 2021, o jornalista Björn Bischoff disse: “Quando o disco foi lançado em 25 de fevereiro de 1976, quase ninguém se interessou por ele. Nem mesmo no Japão”.

E o próprio Suzuki, que faleceu em 2020, era um ilustre (quase) desconhecido. Sobre isso, Bischoff diz: “quase não há informações sobre Hiroshi Suzuki na internet, onde os colecionadores de discos mais experientes ainda trocam ideias. Em nenhum outro lugar. Nem mesmo uma entrevista. A busca por um quase desconhecido”.

“Cat” poderia ter sido plenamente esquecido no Japão se a Columbia não tivesse relançado o disco por lá em 2015. Além disso, a Klimt Records também lançou, em 2019, o LP na França, onde teve uma recepção negativa, de acordo com o jornalista do blog alemão.

Que me desculpem os franceses, mas discordo.

O disco pode não ser quintessencial, pois há falhas notáveis. Todavia, não comprometem todo o LP. Bischoff, por exemplo, observa que em “Walk Tall” o baixo dá “errado por um momento”. Porém, ele também reconhece que “a melodia salva a peça”. Eu vou além e afirmo que essa canção é como fosse um épico na forma de jazz.

“Walk Tall” de Suzuki é uma versão da canção homônima tocada pelo “The Cannonball Adderley Quintet” no fim dos anos 1960. Trata-se de um fato nada surpreendente para quem conhece a (escassa) biografia de Suzuki. Quando tinha 38 anos de idade, ele se mudou para os Estados Unidos, onde tocou na banda do baterista Buddy Rich. Em algum momento de sua estadia na América do Norte, ele teve contato com o “Walk Tall” de Cannonball. Para ter incluído a canção em seu próprio LP, só podemos concluir que ele gostou do que ouviu.

Apesar de ser um cover, eu considero que a versão de Suzuki possui contornos mais épicos que a canção original. E por quê? O épico também se caracteriza pela duração. Filmes com mais de três horas de duração são considerados épicos. “Walk Tall” de Suzuki possui 10 minutos e 14 segundos. Muita coisa para uma música de jazz. A música de Cannonball possui 2 minutos e 40 segundos na versão que aparece na compilação “Walk Tall: The David Axelrod Years”. No disco “Country Preacher”, um álbum ao vivo, ultrapassa os cinco minutos. O que ajuda a estender a música de Suzuki são as suas intervenções com o trombone, característica que não há na música original.

Em ambas existe a intervenção instrumental (seja com trombone ou com saxofone) que produz um tom homérico útil para anunciar a vitória do herói. Mas no cover de Suzuki, o tempo é mais longo. É um som que, por alguma razão, gera em mim uma leve euforia. Naturalmente, por ser mais extenso, o cover me permite ter uma sensação de entusiasmo ainda maior.

“Walk Tall” de Suzuki é superior às outras músicas de “Cat”. No entanto, elas têm suas próprias qualidades. A primeira faixa, intitulada “Shrimp Dance”, é lenta e relaxante, como se levasse o ouvinte a uma praia linda e deserta, com uma areia vividamente branca e nivelada que pode servir como uma pista de dança improvisada. A “dança camarão” é remansada a ponto de não desnivelar significativamente a areia. “Kuro To Shiro”, a segunda música, evoca o conceito de contraste (preto e branco). A “dualidade” pretendida é capaz de me tirar da indiferença. A quarta faixa “Cat” consegue ser mais longa que “Walk Tall”, mas não repete seu caráter épico, apesar da duração. Porém, a música possui sua própria singularidade positiva, como o uso cativante do piano. Há momentos em que o piano se torna mais intenso, sugerindo um clímax. Outros instrumentos acompanham e a música se torna candente. A canção final do disco se chama “Romance”. De acordo com o site Who Sampled, essa música transcendeu o jazz japonês, pois foi “sampleado” 87 vezes, inclusive por rappers. A sua sonoridade possui um aspecto sedutor que se torna mais atraente no minuto final.

Com todos esses atributos positivos, a indiferença da imprensa é inexplicável. O jornalista Björn Bischoff tem uma hipótese: “devido ao groove agradável na forma de tocar de Hiroshi Suzuki, este disco pode parecer um pouco discreto”.

Discreto ou não, “Cat” é um álbum de jazz com qualidade acima da média. Suas faixas possuem qualidades singulares e a combinação delas construiu um disco envolvente que vale a pena ser ouvido.

terça-feira, 16 de julho de 2024

O Terceiro Médico

Diferentemente do que muita gente pensa, o inferno pode ser o local onde tem de tudo, menos o diabo e o fogo. Graças à literatura, podemos imaginar o inferno com uma configuração muito distinta daquilo que o cristianismo prega. 

O escritor irlandês Brian O’Nolan usou seu talento literário para elaborar um original post mortem. Na sua obra “O Terceiro Tira” (1967), o protagonista comete um crime horrendo, morre e vai parar num inferno onde há personagens e cenários nonsenses. O intrigante, no entanto, é que as situações estranhas e ruins que acontecem com ele sempre se repetem. Nota-se aí uma característica observada em qualquer inferno: a eternidade. Mas uma diferença fundamental é a repetição dos acontecimentos. 

Posto isso, revelo ao raro leitor que estou numa situação que me faz cogitar a possibilidade de estar em um inferno repetitivo e eterno. 

Há meses, entrei em contato com uma clínica que me atende regularmente. O objetivo maior das minhas visitas é pegar uma receita amarela. Como as agendas dos médicos desse estabelecimento são lotadas, eu costumo esperar, no mínimo, um mês para ser atendido. Sempre foi assim e, apesar de alguns incômodos, eu acabo conseguindo a receita. Contudo, desta vez a situação mudou um pouco.

Eu havia marcado para o início do mês seguinte quando recebi uma ligação da clínica:

- Doutor Fulano de Tal não vai poder te atender no dia marcado. Podemos marcar outra data?

- É claro! Por favor remarque.

- Tudo bem. A próxima consulta é daqui a 47 dias.

- 47 DIAS!?

- Sim, senhor.

- Mas eu preciso pegar as receitas. O remédio está acabando. 

- …

Dei meu jeito. Tentei economizar a medicação para que durasse tempo suficiente até a próxima consulta, mesmo que houvesse o risco de ficar disfuncional.

Os 47 dias se passaram. Vou à clínica. Minha vez chega e vou à sala do médico. Depois dos cumprimentos “protocolares”, ele me dá a má notícia:

- Infelizmente, a receita amarela acabou ontem.

Desabafei, naturalmente.

- Eu esperei 47 dias para isso? - perguntei. 

O médico levantou as mãos de tal maneira, como se dissesse: “não tenho nada a ver com isso!”.

Conversei com as recepcionistas, perguntei quando a receita amarela chegaria. Disseram-me o dia. Pedi que me encaixassem em algum horário no dia em que a receita estaria disponível. Com muita paciência e conversa, consegui convencê-las.

Na semana seguinte, fui à clínica e peguei a receita.

Então, dias depois, marquei novamente uma consulta. Para o início do mês seguinte. E então veio a temida ligação:

- Infelizmente, por motivos de “força maior”, a doutora Ciclana não vai poder te atender no dia agendado. Podemos remarcá-lo?

- Sim, por favor.

- Sua próxima consulta será daqui a 45 dias!

- Meu Deus do céu!

Mais uma vez, tive que me virar. E quando o tempo passou e o dia da consulta chegou, o leitor já pode imaginar o desfecho.

- Não temos receita amarela - disse a médica.

Mais uma vez, conversa e paciência com as atendentes da recepção. E na semana seguinte, fui à clínica num horário “extra” em que me encaixaram. Consigo pegar a receita.

Dias depois, eu ligo e marco outra consulta, a atendente agenda para o início do mês seguinte…

Bom, o leitor já sacou o que vai ocorrer. Talvez eu tenha tido um destino parecido com o do protagonista de “O Terceiro Tira”. Só não me perguntem o que eu fiz para merecer isso, pois não faço a menor ideia. 

Inspirei-me nesse romance para escrever esta crônica, mas diferentemente de O’Nolan, que mostra o “terceiro tira” - personagem que dá nome ao livro -, vou poupar o leitor do “terceiro médico”, a pessoa que me atenderia pela terceira vez seguida no inferno das clínicas.

Armado no banheiro

Estava na praça de alimentação de um modesto shopping localizado em Lauro de Freitas, quando escutei a conversa sobre três rapazes que encon...