sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

A difamação da loucura

Na casa lotérica, um homem chamado Erasmo esbarrou em mim acidentalmente. Sei o nome dele porque sua carteira de identidade caiu no chão. Abaixei-me para pegá-la e acabei lendo o documento.

— Desculpe, rapaz. E obrigado. Tô com a coluna ferrada. Não seria uma boa ideia me abaixar assim — disse ele, gargalhando logo em seguida.

— Tranquilo — respondi.

Era sábado, e a lotérica estava mais lenta e modorrenta do que o normal. Eu já esperava havia quase meia hora. Dos quatro guichês, três estavam abertos. Na prática, porém, funcionavam apenas dois. Um homem havia tomado conta do guichê nº 1 como se fosse seu. Estava ali desde antes de eu chegar, talvez havia quarenta minutos. A situação começava a revoltar a fila. Outro homem, que acabara de ser atendido, resolveu externar a raiva:

— Esse cidadão está ali há muito tempo! Acho que já faz uma hora! Isso é um absurdo!

— O que ele está fazendo? — perguntou uma mulher.

— Quem sabe? Parece que é jogo.

Havia uma televisão na lotérica. Era hora do almoço, momento em que os chamados “programas populares” capricham nas notícias em que a carnificina é escancarada. Como se sabe, é uma ótima ideia ver e ouvir porcaria enquanto se almoça.

Informaram que um homem havia torturado e assassinado outro por motivações políticas. Como se isso não bastasse, tentara ocultar o corpo. É melhor omitir, nesta crônica, os detalhes. O caso bárbaro virou assunto entre três coroas que estavam logo atrás de mim. Olhei para trás e vi que Erasmo era um deles.

— Esse assassino é maluco! — disse um. — Pra fazer algo assim, só pode ser louco!

— Também acho — respondeu outro. — Uma pessoa normal não faz isso.

Erasmo interveio em defesa da loucura:

— Loucura nada! Isso aí é perversidade. As pessoas são cruéis e não perdem a oportunidade de jogar a culpa na maluquice.

A reflexão fazia sentido. Há quem creia que o ser humano seja incapaz de cometer crueldades quando está em pleno domínio da razão. E isso depois de toda a maldade que já aconteceu no mundo. É evidente que existem assassinatos cometidos por pessoas mentalmente perturbadas. O problema é aplicar essa tese sem um mínimo de análise.

Há criminosos que recorrem a essa desculpa para justificar seus atos. Há a madame que profere xingamentos racistas contra um entregador de aplicativo e, quando seu espetáculo de horror é exposto para o Brasil inteiro, afirma que agiu assim porque não havia tomado os remédios. No interior da Bahia, uma mulher invadiu a loja de uma judia, agrediu-a e a insultou. Nas redes sociais, foi chamada de “louca”. É a loucura sendo difamada.

Enquanto isso, o homem permanecia no guichê nº 1. Já estava ali havia mais de uma hora. Eu aguardava minha vez havia quase cinquenta minutos. A fila avançava como uma lesma em câmera lenta.

A loucura continuava em pauta, mas não aquela que supostamente provoca a barbárie. Agora discutia-se a suposta maluquice do homem que havia se apoderado do guichê. Uma mulher que estava à frente e dizia ser médica apresentou seu “diagnóstico”:

— Não é normal. A pessoa não querer sair de um guichê e gastar uma fortuna com jogos de loteria... Não é normal.

Olhei para trás e vi Erasmo balançando a cabeça. Estava indignado. Mais uma vez, responsabilizavam a loucura pelos atos do ser humano.

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